Faltava só acordar

Acho que era bem cedo de manhã, pela cor do céu e pela neblina que impedia de ver muito mais do que a casa de madeira que ia servir de cenário. Por algum motivo, eu tinha chegado antes de Irwin, meu ajudante, e da própria cliente. Como eu sei que Irwin era meu ajudante e que eu esperava uma cliente para um ensaio fotográfico, eu não sei. Nos sonhos, nunca se sabe por que se sabe. Simplesmente sabemos.

Irwin chegou pouco depois, carregando uma caixa de madeira. Da mesma cor da casa. O que provocou uma associação involuntária entre a casa a caixa, como se os dois fossem pedaços de uma mesma coisa que tinha se dividido e se espalhado pelo lugar. A neblina e Irwin também eram da mesma cor, provocando a mesma sensação. Talvez por isso eu tenha demorado a perceber que ele tinha chegado: ele parecia um pedaço de neblina viva, com olhos e roupas.

-Conseguiu, Irwin? -eu disse. E quando disse, ainda não sabia por que tinha dito. Nos sonhos, não sabemos por que dizemos. Só dizemos.

-Sim, senhora. Deu um trabalho lascado. Mas tá aí, é bem o que ela pediu.

Na verdade agora não tenho certeza de que Irwin disse isso mesmo. Não me parecem as palavras de um pedaço de neblina. Talvez ele tenha só sorrido. Ou piscado.

Não entramos na casa, mas estávamos lá dentro agora. E a cliente não tinha chegado, mas também já estava lá. Nos sonhos, as coisas acontecem sem acontecer. E a máquina fotográfica que apareceu na minha mão estava lá desde o começo, apesar de que pode não ter estado.

Minha cliente provavelmente era muda, porque não disse uma palavra do começo ao fim do sonho. Logo, eu também não sei como sabíamos, eu e Irwin, que ela queria um ensaio dela mesma dentro de uma banheira de louça branca, usando um vestido branco, com um cavalo marinho voador voejando em volta. Sei que quando nos vimos no interior da casa ela já estava dentro da banheira, com os braços para fora, e uma mancha de sangue menstrual estampava o vestido meio túnica que ela usava e que cobria até as canelas. Não tenho certeza dessa parte do sangue também. Mas não faz muita diferença.

Irwin abriu então a caixa que trazia e liberou o cavalo marinho voador. Que não tinha asas. E que voejava, não voava, pelo interior da casa, que parecia se resumir àquela sala. Ele tremelicava o rabo enrolado e dava pequenos saltos para frente e para cima, como os cavalos marinhos normais fazem na água. Durante algum tempo, nada aconteceu, a não ser os movimentos daquele ser nominalmente equestre. Acho que eu não me mexi, nem Irwin, nem ela, a mulher. Todos ficamos parados olhando os saltitos da criaturinha, que tinha um tamanho nada proporcional ao nosso (era absurdamente grande).

Me ocorre agora que depois de tanta neblina lá fora, um pedaço de neblina ali dentro, uma banheira e um cavalo marinho voador, eu deveria estar me sentindo molhada. Mas não estava. Tudo estava bem seco. O que é bom, porque eu ainda segurava uma câmera.

 Quando eu finalmente resolvi tentar enquadrar cavalo marinho, banheira e mulher no visor da câmera e tirar uma primeira foto, o que era difícil porque a banheira não saía do lugar e o cavalo marinho não parava no lugar, tudo, ou melhor, quase tudo, escorreu. Pelo ralo da banheira. Talvez só nesse momento é que tenha surgido um ralo na banheira, mas o fato é que a presença dele foi fundamental. Se antes estava tudo tão seco, agora era bastante molhado. Não sei o efeito disso sobre a minha câmera. O ar a minha volta ficou líquido e escorreu, sugado pelo ralo, e Irwin e a caixa, assim como a mulher e o cavalo marinho, escorreram também, todos juntos num movimento concêntrico de ciclone, daqueles que se formam na pia da cozinha no fim da lavagem dos pratos.

Eu assisti parada a tudo sumir pelo ralo. Quer dizer, quase tudo. Sobrou, obviamente, a banheira, que continha o ralo. Mas não por muito tempo. Logo, ela também foi tragada pelo pequeno orifício de metal, num contorcionismo surpreendente. E antes de que eu me desse conta, o próprio ralo sumiu nele mesmo. Sobrei eu, parada na sala, agora já seca de novo, mas sem ar, sem Irwin, sem caixa, sem mulher de branco, sem cavalo marinho voador e sem banheira. Faltava só acordar.

Isabela Torezan (eu sonhei isso mesmo)

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