– O senhor pretende se mudar, seu Valter?
Vários jornais abertos na sessão de classificados de imóveis tomavam a mesa de café da manhã.
– Não é da sua conta, Felícia. Limpe logo essa mesa e volte pra cozinha.
Felícia empilhou um prato, uma xícara e um copo e saiu da sala. Se não fosse o excelente salário que Valter Degas (nenhum parentesco conhecido com o pintor) oferecia, ela já teria saído desse emprego há anos. Valter era um homem antipático, sisudo e, sobretudo, grosseiro. Considerava os empregados como seres inferiores e via o dinheiro que dava a eles como uma autorização para dispor deles como bem entendesse, e não como a recompensa pelo trabalho. Felícia tinha uma mãe com mal de Alzheimer e dois filhos ainda dependentes para sustentar, e o trabalho de seu marido não ajudava muito no orçamento. O salário de empregada doméstica pago por Valter era absurdamente superior a qualquer outro pago em qualquer casa da cidade, justamente porque se não fosse assim, ninguém aceitaria trabalhar naquela casa. O apelido dado pelas crianças da vizinhança ao Sr. Degas dava uma ideia da reputação (merecida) desse homem: O Monstro.
O Monstro Valter vivia sozinho numa casa enorme, herdada dos pais já falecidos, e que dava um cansaço em Felícia, que precisava manter tudo aquilo limpo. E ele pretendia, como especulara Felícia, se mudar para uma casa menor, com espaço suficiente para Zorro, o Golden Retriver, e apenas um quarto em vez de três. O motivo, lógico, não era o trabalho que uma casa muito grande dava a Felícia, mas sim o quanto ele estava gastando com IPTU. Além de grosseiro, Monstro Valter era avarento.
De forma que naquela manhã Monstro Valter esquadrinhava os anúncios de casas à venda em três jornais diferentes, à procura de algo que lhe interessasse. Ficou nervoso com a ousadia de Felícia de fazer conjeturas sobre seus movimentos financeiros e quis se livrar dela logo, para se concentrar em um anúncio que tinha chamado sua atenção. O preço pedido pela casa, que tinha até uma piscina modesta, era espantosamente baixo. O atual proprietário estava praticamente dando o imóvel. Intrigado e suspeitando de um erro de digitação, Monstro Valter rasgou o pedaço do jornal que continha o anúncio e o colocou no bolso, com a intenção de ligar para o anunciante do telefone do escritório, cuja conta era dividida com seu sócio. Como já dissemos, Monstro Valter era avarento.
– Bom dia, aqui é Valter Degas, encontrei esse número no anúncio do Diário… é sobre a casa à venda.
– Ah sim… bom dia, Valter. Meu nome é Carlos Silva, só Carlos está ótimo. Gostaria de ir ver a casa? Podemos marcar um horário.
– Na verdade estou ligando para confirmar a informação do anúncio. O valor é esse mesmo? Para comprar?
– Achou baixo o preço, certo?
– Bom, sim. Pensei que poderia ser um erro.
– Valter, você é um homem supersticioso? Acredita no sobrenatural?
– De forma alguma. Por que pergunta isso?
– Creio que devo ser sincero com você. Estou vendendo essa casa porque quero desesperadamente me livrar dela. Vai rir agora, se disse não acreditar no sobrenatural. Mas essa casa é mal assombrada.
Monstro Valter deu uma gargalhada monstruosa que não se preocupou nem um pouco em disfarçar. Não estava nas prioridades do Monstro Valter evitar que outras pessoas ficassem chateadas.
– Mal assombrada, como? Vai me dizer que tem fantasmas morando lá?
– Ah, não, é bem pior do que isso, na minha opinião. É um problema com os espelhos. Mas estou falando com um cético, já percebi que de nada adianta te advertir disso. Tanto melhor pra mim, que quero vender essa coisa logo. Vamos aos negócios.
– Se o valor é esse mesmo, garanto que estou interessadíssimo na oferta. Me disponho a visitar a casa hoje mesmo, se possível.
O desesperado Carlos Silva encontrou seu potencial comprador na casa anunciada, um imóvel relativamente novo, de excelente localização e compatível com as exigências de homem de classe média alta do Monstro Valter. Contente por fazer tão bom negócio quando o motivo da sua mudança era justamente econômico, Monstro Valter assinou o contrato já no dia seguinte e começou a se preparar para a mudança. Despediu Felícia, porque agora só ia precisar de uma diarista duas vezes por semana (não se engane: a louça, roupas e lixo dos dias em que a diarista não ia se acumulavam na pia e no tanque, Monstro Valter jamais seria visto lavando nada).
Agora começa a parte interessante da história. A esse ponto, espera-se que o leitor já tenha raiva o suficiente de Monstro Valter para querer que ele se dê mal e Felícia e todas as outras pessoas que ele maltratou sejam vingadas. Pois bem, o desenrolar dos acontecimentos deve satisfazer essa sede de vingança. Vamos ao dia da mudança de Monstro Valter.
A primeira coisa que o novo morador da casa dita assombrada quis fazer, quando se livrou dos carregadores de móveis, foi tomar um banho. Vasculhou algumas caixas em busca de toalha, roupas limpas e sabonete e foi para o banheiro. Quando foi pendurar a tolha num gancho do lado da pia, Monstro Valter viu seu reflexo no espelho. Ato contínuo, largou a toalha e colou a enorme bunda na parede oposta, olhando aterrorizado a figura que o encarava de volta. Monstro Valter podia não ser bonito, mas a aberração que via refletida ali não podia ser ele, de forma alguma. Um ser deformado, com buracos na pele, chifres na cabeça e várias verrugas era o que se apresentava como o reflexo de Monstro Valter no espelho do banheiro.
“Não pode ser”, pensou Monstro Valter. Levantou um braço, e a figura hedionda fez o mesmo. Abriu a boca e o reflexo o imitou, mas para revelar caninos amarelos e podres, em vez dos bem cuidados dentes do Monstro Valter.
Depois de constatar que o reflexo não era real, e que ele mesmo não estava parecendo nenhuma mistura de monstro do pântano com demônio, Monstro Valter resolveu tomar uma banho bem quente e descansar, certo de que estava sofrendo alucinações por estafa.
Depois de se secar, ele, que afinal nem era supersticioso, não é mesmo, saiu do banheiro de olhos fechados, tateando, para não olhar o espelho novamente. Mas as agruras do Monstro Valter não param aqui.
O pequeno espelho no armário do banheiro era apenas um dentre os muitos espelhos que a casa tinha. Uma quantidade absurda de espelhos se espalhava por corredores e cômodos, supostamente como itens de decoração. No quarto onde ele dormiria, havia nada menos do que cinco espelhos, três paredes com um cada e uma com dois. E todos apresentavam versões bestiais do reflexo do Monstro Valter, dando mostras inclusive de uma capacidade de variação incrível. Ele se via ora inteiro verde com pústulas amarelo-roxeadas, em outro espelho transformado em um esqueleto com restos de pele dependuradas dos ossos, depois inteiro coberto de pelos e com as mãos transformadas em garras, e o espelho da sala chegou a mostrar um Valter sem corpo definido, formado por uma massa cinzenta de aparência viscosa que ondulava de maneira assaz nojenta e tinha apenas a sua cabeça plantada no meio como elemento de identificação.
Monstro Valter tentou contornar o problema ignorando os espelhos todos, mas a quantidade exagerada deles na casa tornava isso bastante difícil. Depois tentou arrancá-los da parede, e fracassou novamente. Ele nem conseguiu entender como os espelhos estava presos, e tentou várias ferramentas antes de desistir e resolver partir para o método mais drástico.
Munido de uma barra de ferro que encontrara no quintal, Monstro Valter decidiu quebrar os espelhos, um a um. E assim fez. Com a raiva que já lhe era até característica, ele golpeou várias vezes o espelho da sala, seu pior inimigo porque mostrava as piores versões dele mesmo, e em seguida partiu para os outros. Dezenas de espelhos quebrados depois, o chão da casa estava tomado de cacos de vidro e Valter Degas sentava sozinho no chão da sala, exausto.
Parece inútil dizer que ele estava sozinho, afinal sempre morou sozinho, mas essa era a primeira vez que Valter Degas se sentia realmente sozinho. Supreeendendo a si mesmo, ele começou a chorar. Chorou como uma criança por vários minutos. Sentia-se confuso e tinha a sensação de que precisava fazer alguma coisa para se sentir bem, mas não conseguia identificar o que era.
Até que, tomado de uma súbita inspiração, pegou a carteira, as chaves e um casaco e saiu da casa. Andou a esmo pelo bairro durante quase uma hora, e acabou indo parar na avenida quando já estava escuro. Encontrou um senhor agachado na porta fechada de uma loja e parou na frente dele, ainda se sentindo confuso.
O senhor no chão, embrulhado em um cobertor esfarrapado, olhou desconfiado para a figura estranha de Valter Degas parado ali. Depois de alguns minutos, o homem mais avarento da cidade de repente teve outra inspiração súbita e tirou a carteira do bolso. Colocou uma quantia razoável de dinheiro na mão do atônito senhor com frio, que quase não aceitou as notas de tão estranha que lhe parecia a situação.
Chorando outra vez, Valter Degas sentou-se no chão ao lado do seu primeiro beneficiado e abraçou o homem, que tentou se esquivar apavorado. Não é todo dia que alguém sai distribuindo dinheiro e abraçando gente, afinal, a desconfiança do senhor do cobertor era perfeitamente compreensível.
Valter Degas então se levantou e continuou seu caminho na calçada, ainda chorando. Sentia a cabeça meio inchada e notou que ela começava a doer, e sabia que era porque estava pensando em coisas que eram para ele novas e muito complexas, como ajudar alguém. O Monstro Valter não era mais monstro.
Isabela Torezan
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