Resenha de Moby Dick
Hoje sou eu mesma que estou aqui. Não vou escravizar nenhum dos meus personagens problemáticos e esquisitos com disfunções várias cujas aventuras eu pretendo que sejam divertidas. Acabo de terminar de ler Moby Dick, e vim eu mesma falar disso.
Claro, acredite nisso quem quiser. Nada garante que não acabei de inventar uma personagem feminina que terminou Moby Dick. E que eu não seja problemática e esquisita com disfunções várias.
Ganhei Moby Dick de presente de Natal do meu pai, em uma edição voluptuosa e concupiscente da Cosac Naify (agora que eles não existem mais, merchandising liberado). Cheirei e apalpei muito esse livro antes de começar a ler, confesso. Você também faria isso, é instintivo.
Eu poderia dizer: Moby Dick é sobre uma baleia branca.
Também poderia ser: Moby Dick é sobre uma baleia branca e feroz.
Moby Dick é sobre uma baleia branca e feroz que arrancou a perna de Ahab, um capitão de um baleeiro.
Moby Dick é a história de uma viagem do baleeiro Pequod.
Moby Dick é a história de Ahab. (O que soa estranho, já que o título tem o nome da baleia)
Moby Dick é sobre a caça de baleias.
Moby Dick é um relato de Ishmael, um homem que embarca no Pequod.
E tem muitas outras possibilidades.
Unindo tudo: Moby Dick é uma história narrada por um homem chamado Ishmael sobre um navio baleeiro chamado Pequod, cujo capitão, chamado Ahab, não tem uma perna e tem como maior objetivo na vida encontrar e matar Moby Dick, a enorme e feroz baleia branca que arrancou sua perna em outra ocasião.
Mas para mim, o que realmente define a história não é nada disso. O que define uma história varia entre os leitores, na minha opinião, e sempre vai ser o que o leitor via enquanto lia. O que o manteve preso no livro do começo ao fim. É por isso que quando não gostamos de um livro e abandonamos a empreitada no meio do caminho, sentimos aquele vaziozinho: faltou o que te prendesse na história, aquilo que definia a história para você.
O que definiu Moby Dick para mim, inicialmente, foi a obsessão de Ahab. Assim: Moby Dick é a história da obsessão do capitão Ahab. Qual a obsessão de Ahab? Moby Dick. Faz todo o sentido o nome ser esse então, não?
Foi descobrir e acompanhar a sede de vingança do capitão que me manteve dentro do Pequod até o fim, sem vontade de abandonar o navio. À primeira vista, é só uma vingança, que parece muito irracional, pela perna perdida, porque é contra um animal, um ser sem sentimentos, que não teve a intenção de causar nenhum mal. Mas a ideia que Ishmael passa não é essa: Moby Dick é mau, odeia navios, odeia humanos, fere, luta e destrói com intenção. Não dá muito para acreditar na maldade de uma baleia, hoje em dia. Sabemos que não atacam humanos e etc. O que resulta disso então?
Eu passei, depois, a ver Ahab simplesmente como um homem com um objetivo, ao invés de um obsessivo exagerado. Objetivos temos nós todos, ou pelo menos nos sentimos melhores se temos. Ahab é, para mim, o máximo da determinação humana. Ahab vai perseguir Moby Dick até o fim da vida de um dos dois, essa é talvez a mensagem mais repetida no livro todo. É um objetivo louco, fora da realidade? É. Mas ele está aí para representar todos os nossos objetivos normais e medianos, tão mais fáceis de perseguir do que uma baleia branca gigante que derruba navios com a cauda.
No fim, acho que Melville é um pouquinho moralista (não que isso seja ruim). Ahab é herói, é grandioso, é um personagem positivamente retratado, apesar da sua maluquice. Sua determinação é questionada só pelos homens da tripulação, mais covardes, menos inteligentes e menos carinhosamente retratados por Melville. Então a moral da história para mim foi essa, o bom, o certo, é Ahab, que não desistirá do que jurou fazer, por mais perigoso, custoso, difícil (e até errado, do ponto de vista do leitor contemporâneo, se formos pensar) que seja sua tarefa. Não posso contar o final, não é certo com quem ainda não leu, mas não tem importância, porque para mim a mensagem é a mesma independente do final. Afinal, quando se persegue um objetivo, parte-se do pressuposto que ele será alcançado da forma mais exitosa; antes de atingi-lo, só há um fim possível.
Achei Moby Dick uma leitura apropriada para inícios de ano. É bem a época em que estou sempre pensando nas inúmeras baleias brancas que tenho que perseguir na vida.
Isabela Torezan
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