Os vivos

Tereza está morta e mora comigo há dois anos. Nós nos conhecemos no enterro do meu avô e construímos um vínculo muito forte em pouco tempo. Ela morava no cemitério desde o próprio enterro e vivia bastante infeliz com isso, porque em vida tinha conhecido condições bem melhores de moradia do que o mausoléu úmido e decadente em que sua família a tinha encerrado. Na verdade, eu só fui às cerimônias de meu avô porque minha mãe e minhas tias insistiram muito: sempre detestei qualquer motivo para reunir a família, porque é inevitável, nessas situações, ter que contar o que você andou fazendo nos últimos três ou quatro anos para pelo menos umas quinze pessoas. Mas hoje sou bastante grato à insistência delas, porque é bem pouco provável que eu tivesse conhecido Tereza de outra maneira. Não tenho motivos para visitar o cemitério.

As despedidas do meu avô aconteceram em um dia ensolarado e alegre, e se não fosse pelos inúmeros olhos vermelhos e narizes inchados que circulavam por ali, alguém podia confundir o velório com uma festa. Em um canto, um primo meu tocava as músicas favoritas do  falecido em um acordeão. Ora, como vovô ouviu salsa a vida toda, o clima do ambiente absolutamente não era fúnebre. As meninas pequenas da família corriam atrás dos primos meninos, tentando prender flores nos cabelos deles. A aura festiva da cerimônia atraiu Tereza, que é bastante sensível musicalmente e sempre gostou de crianças. Eu fui o primeiro a notar a sua chegada, e até hoje não sei se fui o único. Depois daquele dia, nos encontramos diversas vezes, sempre fora do cemitério, que ela odiava, e logo estávamos perdidamente apaixonados um pelo outro.

Não sei dizer quando foi que decidimos morar juntos. Eu me lembro dos tempos em que ainda vivia sozinho em meu pequeno apartamento, mas não consigo encontrar na memória o dia exato em que Tereza chegou em casa e nunca mais foi embora. Nós vivemos em perfeita harmonia. Somos o modelo ideal do casal perfeito de uma sociedade patriarcal e ligeiramente machista: eu trabalho e sustento a casa e Tereza cozinha, limpa e faz as compras. Aos finais de semana, sempre vamos ao cinema. Temos um cãozinho que se chama Ford. Há vasinhos de gerânios na sacada. Como se pode ver, nossa vida conjugal é bastante normal. Não tentamos nos casar no civil porque Tereza tem um atestado de óbito arquivado no cartório, e nós pensamos que isso pudesse dar algum tipo de problema na hora de assinar os papéis. Também não casamos na igreja porque nenhum dos dois tem religião. Quanto a filhos, não os quero ter, por isso nem chegamos a investigar se Tereza seria capaz de gerar uma criança. Estamos contentes com Ford e os gerânios, pelo menos por enquanto.

Há, porém, um detalhe que representa uma mancha na perfeição da minha concubina. Tereza é gelada. Absolutamente gelada. Eu pensava que isso de mortos terem a pele fria era lugar-comum das histórias de terror, mas mudei de ideia depois que a minha cama se transformou em uma simulação de uma barraca instalada no meio do Ártico. Tereza irradia frio, como nós irradiamos calor, o tempo todo, até quando dorme ou faz amor. Já tentei minimizar o problema de inúmeras maneiras: bolsas de água quente, aquecedores no quarto, cobertores elétricos, um tijolo quente embrulhado em jornal e também a junção de isso tudo. Não tive sucesso com nenhuma das estratégias. Dois anos depois, ainda sofro com os resfriados que apanho por dormir com uma pedra de gelo abraçada em mim. Durmo muito mal, é claro. No começo, eu na verdade nem dormia. Depois, me acostumei o suficiente para conseguir ter uma noite de sono quase razoável, acordando toda vez que ela muda de posição e uma nova parte de seu corpo gélido entra em contato com o meu.

A iminência do aniversário aproximado da nossa união, em que, como eu já disse, completaremos dois anos de vida em comum, levou a nossa crise de temperatura a um estado de urgência. Não deixei de amar Tereza nem um pouquinho nesse tempo todo, e ainda me seria muito difícil ter que me separar dela. Mas a minha resistência ao problema que expliquei chegou ao fim, e eu me vi na necessidade de encontrar uma solução definitiva para evitar um rompimento que nos deixaria profundamente desolados; Tereza inclusive, porque eu sei que ela gosta de mim tanto quanto eu gosto dela. Eu já tinha gasto vários dias em pesquisas inúteis e queimado muitas calorias tentando ter uma ideia boa, sem obter nenhum resultado, quando finalmente a resposta que eu procurava surgiu em minha cabeça, resplandecente, no meio do meu banho. Desde criança sou da opinião de que tomar banho favorece a atividade cerebral, e inclusive formulei a teoria de que a temperatura da água deve ser adequada ao tipo de ideia que se quer ter. Neste caso, eu imaginei que o melhor a fazer era abrir bastante a torneira de água quente e passei quinze minutos fervendo embaixo do chuveiro. Saí inteiro vermelho e transformei o banheiro em uma sauna, mas estava contentíssimo porque acabava de encontrar a salvação do meu casamento.

Esse banho foi ontem de manhã. Eu imediatamente comuniquei minha ideia a Tereza, que ficou bastante feliz, é claro. Gastei a tarde passada com os preparativos. Esta noite já poderemos dormir juntos sem que eu me sinta nem ao menos incomodado, e será apenas a primeira de muitas noites agradáveis.

Hoje é, então, o dia da minha morte. É claro que morrer não era uma ideia óbvia, e foi por isso que demorei a encontrar a solução. Mas eu estava atrás de uma solução definitiva, e não há nada mais definitivo do que a morte. Já que não posso tornar Tereza quente, tornar-me-ei gelado também e anularei minha sensibilidade ao frio como a dela é anulada. Estas são, portanto, minhas últimas linhas como vivo, mas de maneira alguma serão a última coisa que vou escrever. Acabei me afeiçoando à produção literária e decidi que vou continuar escrevendo: Tereza me apoia. Tenho já uma romance em processo embrionário. Se eu publicá-lo e ele fizer sucesso, serei o primeiro autor póstumo aclamado pela crítica. Adeus à vida, mas não aos vivos.

Isabela Torezan

Leave a comment