Com açúcar

As lágrimas de todo mundo, menos as minhas, são salgadas, como água do mar. Na verdade, eu sempre achei isso um pouco nojento, porque suor também é salgado. O gosto do líquido das glândulas lacrimais e das sudoríparas é o mesmo. Quem disse que vocês não choram suor? Deviam ao menos se incomodar um pouco com isso e pensar duas vezes antes de expressar desespero ou tristeza dessa maneira. Mas parece que ninguém liga: já vi várias vezes gente lambendo lágrimas. Vocês são estranhos.

Mamãe, por exemplo, chorou bastante nos meus primeiros anos de vida e nunca tinha pensado nisso até eu falar sobre. Acho que ela queria compensar todas as lágrimas que não derramei quando bebê, porque meu pai diz que ela nunca chorou tanto quanto naquela fase. Visitou dezenas de médicos diferentes para tentar descobrir porque sua linda e aparentemente saudável filhinha não era capaz de chorar como as outras crianças. O máximo que ela conseguiu com essas visitas foi um diagnóstico obscuro de “má-formação das glândulas lacrimais”. Mas acabou se acostumando e aprendeu a interpretar minhas caretas que substituíam o choro nas reclamações pueris.

Passei os tombos da fase de aprender a andar, o início da bicicleta sem rodinhas e choques nas tomadas sem derramar uma única lágrima. Cortei o dedo várias vezes, levei uma mordida do cachorro da vizinha e batia a cabeça na porta do armário quando media 1,58 m. Podia doer horrores, tudo o que eu conseguia produzir eram gritos e um rosto contorcido. Sofri com a crueldade do colegas de escola que não perdoavam minha obsessão pelas notas. Não chorei. Minha vó morreu no meu aniversário de doze anos. Não chorei. Fiquei em último lugar em todas as competições de natação. Não chorei. Muitas outras agruras da vida vieram sem que eu conseguisse pôr a tal da glândula para funcionar.

O problema só veio a se resolver poucos dias depois do meu aniversário de quinze anos. Meu pai sempre me levava para observar o céu à noite, em lugares afastados da cidade onde dá para ver mais estrelas. Numa dessas noites, eu observava um ponto brilhante em particular, que, devido ao meu baixo conhecimento de astronomia, podia até ser um planeta. É legal olhar para o mesmo ponto durante bastante tempo. Sou capaz de passar mais de uma hora vigiando a mesma estrela. Ajuda a limpar os pensamentos, se é que me faço entender. Eu já passava do quadragésimo minuto de vigília quando, de repente, o ponto brilhante ficou muito brilhante, mas muito mesmo, antes de desaparecer por completo. Sumiu. Em um segundo ele estava lá, no outro não estava mais. Isso me impressionou bastante. Contei para o meu pai o que eu tinha visto e ele me disse que aquilo era a morte de uma estrela. “Estrelas também morrem, filha. Depois de muito tempo queimando, elas um dia explodem e apagam.”

Eu já tinha lido sobre muitas mortes, já tinha visto muitas mortes em filmes, tinha sido informada de maneira nada delicada da morte da minha avó três anos antes. Morte não era algo novo para mim. Mas aquela foi a primeira vez que uma morte tinha acontecido na minha frente, sob a minha observação ininterrupta e objeto central da minha atenção. Olhando para o espaço onde minutos antes estava a estrela, comecei a sentir algo que nunca tinha sentido antes. Meus olhos se umedeceram e eu pude, pela primeira vez, experimentar a sensação de ter o rosto molhado por lágrimas. Foram bem poucas, nessa primeira vez. Mas elas escorreram pelo meu nariz e pelas bochechas, do jeito que eu sempre imaginava acontecendo, e uma ou duas foram parar nos lábios. Curiosa com meu novo poder, peguei as gotas com a ponta da língua, esperando sentir o gosto salgado que todo mundo dizia que tinham. Me surpreendi pela segunda vez na mesma noite. As minhas primeiras lágrimas tinham, assim como todas as outras que chorei até hoje, um gosto doce.

Isabela Torezan

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