Dulce

Sinto muito. Meus pêsames. Sinto muito. Deus quis assim, Dulce. É o fim de todos nós, minha amiga. Sinto muito. Ele tem o seu lugarzinho no céu, Dulce: era um santo homem. Estas condolências e outras da mesma família chiavam nos ouvidos de Dulce como água fria na panela quente. Será que aquelas pessoas – gente que afinal lhe queria bem – não eram capazes de perceber que ela dispensava aquele excesso de demonstrações de solidariedade? Não que Dulce fosse uma mulher insensível, muito pelo contrário, tinha sido uma mãe carinhosa, era avó dedicada e era comumente identificada como a melhor esposa em um amplo raio quilométrico. Mas por algum motivo achava exagerada toda aquela pena que as pessoas diziam estar sentindo dela. Amava muito o seu Juca, mas a vida não era feita só dele: ela sabia que podia voltar a ser plenamente feliz depois que curasse o seu luto e voltasse a sua vida normal, emprestando alegria dos netos que a tinham de sobra e acalmando a consciência com as atividades da igreja de que participava ativamente.

Mas como não gostava de criar situações constrangedoras, Dulce tratou de adequar seu comportamento de viúva enlutada aos lamentos do outros, que por ora estavam chegando por telefone, porque o velório seria só no dia seguinte. Vestiu preto enquanto a empregada, Severina, estava em casa e trocou por um pijama velho quando ela foi embora.

Juca morrera naquela tarde de um ataque cardíaco no hospital da Santa Casa, aonde tinha ido se consultar sobre as suas dores nas pernas. Obviamente, as dores nada tinham a ver com o ataque, que aconteceu no hospital por pura coincidência. Juca já contava oitenta e três anos, dois a mais que sua esposa, e afora as já mencionadas dores nas pernas e uma ou outra prisão de ventre, nada mais perturbava a sua tranquila velhice, muito bem empregada no cultivo de peixes ornamentais que ele vendia para as crianças do bairro. As diabinhas judiavam tanto dos pobres peixes que poucos deles tinham uma vida especialmente longa e logo precisavam ser substituídos, de forma que o negócio de Juca ia sempre muito bem.

Dulce tinha combinado com os médicos que o corpo podia ficar ali, no hospital, até o pessoal do velório ir buscá-lo na manhã seguinte. Tinha se despedido dele chorando um pouquinho e teve até um momento em casa em que quis ter morrido também, para estarem juntos, qualquer que fosse o lugar. Na verdade, Dulce rezou um tanto, para que esse lugar fosse o céu. Se o padre José estivesse certo, ela e ele preenchiam todos os requisitos necessários para a ascensão, mas por via das dúvidas Dulce achou melhor fazer umas orações extras em nome do morto, não custava nada, afinal.

Às quinze para as dez já estava bastante calma e resolveu ir dormir. Afofou o próprio travesseiro e deitou do lado esquerdo, que era o seu lado. Talvez na semana que vem ela pudesse ocupar a cama toda, pensou. Depois se sentiu culpada por esse pensamento e não conseguia pegar no sono: trocou o lado do corpo que se apoiava no colchão diversas vezes, sem encontrar uma posição que agradasse. Aí levantou uma vez para ir ao banheiro e uma outra para buscar um copo d’água.

Quando estava já naquela fase de calmaria que antecede o verdadeiro sono e na qual elementos fantásticos do sonho que está por vir começam a se misturar aos pensamentos, escutou um barulho lá fora que a manteve acordada, novamente alerta e agora nervosa. Lembrou-se de que não tinha trancado o portão, até mesmo porque a chave tinha ficado no bolso do Juca e ela não ia ter como abrir o cadeado depois. Levantou da cama tremendo ligeiramente (Dulce sempre tivera medo de ladrões, mesmo quando o marido era vivo) e pegou o telefone, mas não conseguia se lembrar do número da polícia.

Então ouviu claramente a chave sendo girada na fechadura da porta da sala: uma, duas vezes, clac, um rangido, a porta abriu. Dulce correu até a entrada do corredor e espiou, morta de medo. No meio da sala, tirando os sapatos, estava Juca.

As pernas de Dulce receberam todo o impacto do choque e ela caiu sentada no chão. Sem conseguir reagir, ela ficou olhando embasbacada para o seu marido recém-chegado da outra vida ou sabe-se lá de onde.

-Boa noite, Dulce querida. Desculpe entrar tão tarde, eu não queria ter te acordado. Já estava dormindo?

Ele falava com ela como se estivesse voltando do jogo de dominó noturno das sextas feiras. Estranhou encontrá-la sentada no chão e não entendeu quando ela começou a chorar. Quando Dulce finalmente conseguiu se controlar e explicar a causa (óbvia) do seu desespero, foi ele quem fez cara de espanto:

-Ah, é mesmo, tinha até me esquecido disso, porque estou me sentindo tão bem…Vou te contar a história toda, então. Sabe, quando cheguei do lado de lá e vi que você não tinha vindo junto, aprontei um escândalo e liberei toda a raiva que eu acumulei durante a vida desses serviços públicos que não funcionam direito. Eu disse a eles que era inadmissível essa falta de organização, como é que podiam ter me trazido sozinho, se eu já tinha deixado claro várias vezes que a gente tinha que ir junto? Tenho certeza que eles perderam os registros de todos aqueles pedidos, é uma pena que não tenha um número de protocolo ou algo assim. Mas enfim, acho que eles se intimidaram com os meus gritos e resolveram que eu podia voltar e até me prometeram um corpo novinho em folha. Claro que eu achei que estava bom demais e perguntei se ia ser tudo como antes, você sabe, vida normal de novo e tal, e é claro que não ia. Depois de tentar me enrolar um tempão, eles acabaram admitindo que só tinham condições de me reabilitar para uma pessoa, que, é claro, seria você. Mas paciência, é melhor não reclamar e aproveitar, afinal nunca ouvi nenhuma história parecida. Enfim, vamos ter que gastar com o funeral mesmo assim, e você dê um jeito de disfarçar direitinho.

Inútil descrever o estado em que Dulce ouviu esse monólogo. A única pessoa que ela sabia que tinha ressuscitado era Jesus Cristo, e mesmo assim ela não acreditava muito nisso, podia ser só mais uma das inúmeras metáforas do cristianismo. E como o Juca voltara com um corpo novo em excelente estado, ela nem podia usar o método bíblico de tocar as chagas do ressuscitado para provar sua presença neste mundo. Ela não sabia se acreditava, se duvidava ou se simplesmente ficava feliz com a volta do marido e fingia que era uma situação completamente normal.

Depois de escutar mais de meia hora de tagarelice do esposo sobre suas peripécias no além e receber um beijo que não era gelado, Dulce optou pela última saída e passou a ocupar-se do que fariam para disfarçar a invisibilidade da companhia que ela passaria a ter. Parece estranho ter que disfarçar algo que ninguém vê, mas se fosse vista pela janela da sala almoçando em uma mesa servida para dois e falando sozinha, ia dar o que falar e ela ainda corria o risco de ser internada em algum asilo sanatório.

Mas estava tarde e ela convenceu Juca a irem dormir e deixar para o dia seguinte os planos mirabolantes que ele fazia sobre o seu próprio funeral, seguido de uma triunfal fuga dos dois para uma montanha isolada no meio de qualquer lugar, onde ninguém notaria uma velha palestrando com um marido invisível.

Deitaram cada um do seu lado da cama, não sem ele ter afofado o travesseiro dela antes, e apagaram a luz. Alguns minutos depois, a voz de Juca soou no escuro:

-Dulce?

-Humm?

-Está acordada?

-Estou.

-Sabe de uma coisa? A minha dor nas pernas sumiu!

Isabela Torezan

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