Este é um exercício pessoal de escrita. Pode ser chato de ler.
Número um
Eu tenho que dizer o quanto eu amo aquela xícara. E estou ciente do quanto a frase anterior é ridícula. Mas já que tomei consciência do quanto ela significa para mim e consegui me livrar da indefinição de sentimentos que me fazia achar que eu a odiava (ainda na semana passada tive ímpetos de fazê-la voar pela janela), penso que está na hora de passar a limpo minha relação com esse objeto. O que, no meu caso, significa escrever. Acho que posso começar explicando minha dificuldade em distinguir amor do ódio e vice-versa. Eu sempre misturo os dois, então é normal que eu tenha pensado odiar essa xícara da qual na verdade não posso me separar. Vivo hoje com uma mulher que já assassinei várias vezes na imaginação, quando ainda não nos conhecíamos direito e eu pensava que a odiava. Matei-a dos modos mais cruéis e hoje tenho certeza de que gosto dela. Ela sabe disso e ignora ou perdoa minha mente doentia. Mas voltemos à xícara. A coisa mais importante a se dizer é que ganhei o jogo de chá do qual a xícara fez parte de minha falecida mamãe. Todas as outras peças, incluindo o bule, se quebraram. Sobrou só essa representante solitária, que eu mantenho em posição de destaque no armário da copa, com portinhas de vidro. Todas as noites, na hora do chá, eu tiro essa xícara e o seu pires do santuário. Somente eu posso tomar chá nela e sou o responsável por lavá-la, secá-la e devolvê-la ao armário. Tenho certeza de que mamãe teria ficado muito abalada em saber que o resto do jogo já não existe mais (não sou culpado de nenhuma das perdas) e decidi assumir a tutela da única parte que sobrou. Acredito que tenha ficado claro que o valor dessa xícara é puramente sentimental e atrelado às minhas lembranças maternas. Isso explica também porque demorei a me decidir entre o ódio e o amor pelo objeto; minhas relações com mamãe nunca foram muito esclarecidas. De resto, é uma xícara comum, nada tem de raro ou especialmente atraente. É de porcelana branca comum e tem desenhos de flores coloridas pintadas à mão com tinta esmaltada. É bem frágil e fina, o que exige cuidado redobrado quando alguém desastrado como eu a tem nas mãos. Eu a guardo de ponta-cabeça, para não cair poeira dentro, mas não gosto do seu aspecto nessa posição. Já a acho levemente cafona, por causa dos desenhos, de boca para baixo ela parece também mal desenhada.
Número dois
Vendo xícara de porcelana branca com motivos coloridos pintados à mão. Trata-se de peça antiga e muito delicada, única remanescente de um fino jogo de chá, provavelmente do final século XIX. Os ornamentos são desenhos florais ricamente trabalhados. Não há sinais de desgaste ou manchas de resíduos. Valor a discutir, tratar com proprietário pelo telefone (XX) XXXX-XXXX.
Número três
É uma xícara de porcelana. Uma porcelana daquelas ditas delicadas, bastante fina e frágil. Nós, as pessoas sensíveis, temos medo de quebrá-la com a respiração, porque qualquer mínima perturbação pode romper a casquinha delgada que forma as suas paredes. É de um branco muito branco, se é que podemos nos fazer entender assim, e como a sua estética levemente antiquada descarta uma recém-aquisição, supõe-se um cuidado higiênico assombroso. A alvidez da porcelana é suporte para um delicado conjunto de florezinhas coloridas dispostas entre finos ramos verdes e folhas em formato de coração, tudo isso desenhado com bastante maestria, muito provavelmente com uma tinta especial e um pincel feito de fios de pelo de castor. Os pincéis de pelo de castor são muito bons, e o desenho da xícara é por demais bem traçado para ter sido feito com um pincel de segunda mão. A mão que pintou as pétalas, ramos e folhinhas também é amiga da perfeição, porque os detalhes são assombrosamente bem delineados e pode-se ver cada dobra das pétalas e cada nervura das folhas. Os desenhos têm um brilho esmaltado, o que causa o desejo de raspá-los com as unhas. Tem-se a impressão de que é possível tirá-los dali. O formato da xícara é pouco original, mas tem algo de excessivamente delicado que a diferencia das outras xícaras. A base menor do que a borda parece não ser suficiente para equilibrar a coisinha em cima do pires. Aliás, do pires não falaremos, é assunto para outra descrição. A parte por onde se segura a xícara, comumente chamada de asa, não passa de uma fina alça de porcelana, tão fina que é preferível segurar a xícara toda com as duas mãos, se a temperatura do líquido que se bebe e o grau de formalidade da situação o permitirem. Para evitar o acúmulo de poeira, guarda-se a xícara com a abertura voltada para baixo, sobre o pires, porém isso só é realmente feito por questões de higiene, já que ela perde toda a aura de delicadeza que tem quando em sua posição padrão. Adquire um aspecto grosseiro e mal desenhado e os desenhos vegetais perdem toda a graça na posição invertida. É incrível o que não faz uma mudança de posição. A xícara não tem, por enquanto, nenhum tipo de trincas ou rachaduras, apesar de sugerir, pela sua forma e qualidade, que não é um produto muito moderno. É com certeza uma boa xícara.
Número quatro
Quinta, 22 de janeiro.
Hoje não aconteceu nada muito memorável. Fiz e comi as mesmas coisas. O prédio do escritório ainda está no mesmo lugar e as crianças do apartamento de cima ainda não criaram respeito pela minha sesta. Mas comprei um presente para a Maria Júlia. Naquela loja de coisas velhas que tem na esquina de baixo e que tenta parecer menos decadente usando o nome de antiquário. É isso mesmo. Comprei um presente para a Maria Júlia. Espero que ela goste. Tenho muito medo de ela não gostar. É uma xícara para a coleção dela. Antiga. Eu não daria uma coisa velha para a Maria Júlia, a xícara é antiga. É de porcelana branquinha com desenhos coloridos. Não sei o que são os desenhos porque são bem pequenos e perdi meus óculos de novo. Não vai dar para escrever um cartão, porque não posso escrever com essa letra gigante no cartão. Fica feio. Mas ela vai entender, eu posso gravar o que escreveria no cartão ou sei lá. E eu enxerguei o suficiente da xícara para ver que é bem delicada, com uma asa pequenina e paredes finas. É a cara dela. Como objeto funcional, deve ser ruim. Mas como decorativo, é uma joiazinha. Vou tentar fazer uma embalagem legal.
Isabela Torezan
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