Gupso

Meu nome é Gupso. Eu sou o espírito escritor da autora. Ela mesma me conhece pouquíssimo, e talvez seja por isso que me sugeriu que eu aparecesse em seu lugar no texto. Talvez ela ache que eu vá me revelar aqui, tentado pela chance de aparecer um pouco para pessoas mais interessantes do que ela. Coitada. Tudo o que ela sabe de mim é que sou alto, magro e uso um bigode. E, dada a minha falta de vontade de falar de mim mesmo, é só isso que ela vai continuar sabendo, assim como todos vocês, os outros leitores supostamente mais interessantes.

Raramente conversamos, eu e ela. Porque eu apareço quando quero. Ela não manda em mim. Adoro fingir que não estou ouvindo quando ela está angustiada ou entediada e me implora para aparecer e fazê-la escrever alguma coisa. É a minha vingança por ser um ser etéreo, que é uma coisa horrível. Imagine você, só ter a sua presença sentida por uma pirralha metida a besta que acha que escreve alguma coisa. Porque não nasci turco, por exemplo? Eu podia ser o espírito escritor do Orhan Pamuk. Ainda se eu pudesse trocar umas ideias com outros caras de vez em quando, minha vida ia ser mais movimentada. Mas não, só ela me escuta, e se não estou com ela eu simplesmente não existo. É terrível. Nem terapia ou sessões de psicanálise eu posso fazer, porque Gupso não é ninguém fora da cabecinha oca desse protótipo de qualquer coisa.

Talvez eu esteja sendo um pouco duro. A cabeça dela não é oca, não. Principalmente se eu estou por lá, claro. Mas sinceramente, meu potencial poderia ser bem mais aproveitado se eu tivesse tido a sorte de me ligar a algum escritor de verdade. Não vou revelar minha idade, mas pelos bigodes já dá para imaginar que não sou muito jovem. É justo um senhor experimentado ter que servir de leva e traz de inspiração para uma coisinha que acabou de atingir a maioridade? Não sei quem faz essa distribuição dos espíritos escritores, mas deve ser alguém bastante incompetente. Ou cometeram um erro no meu caso.

Já deu para perceber que não nos damos muito bem. Só aceitei uma sugestão vinda dela porque vi que era a minha chance de ter minhas reclamações ouvidas por outras pessoas. Na maior parte das vezes, nunca faço o que ela quer. Apareço com ideias às quatro da manhã, e dou um jeitinho de elas sumirem quando ela levanta da cama. Fico semanas inteiras desaparecido quando ela está de férias. Apresento umas coisas como se fossem ideias fantásticas quando na verdade são trechos de obras de outras pessoas que ela já leu. Ela se irrita comigo e ameaça se livrar de mim, o que não me amedronta nem um pouco porque sei que ela não pode por ninguém no lugar. Ela nem me chama de Gupso, só de “bigodudo preguiçoso”. Eu também não uso o nome dela, só falo “coisinha incompetente”. E assim vivemos, aos trancos e barrancos  e muito mau humor. Eu espero que as coisas melhorem quando ela envelhecer um pouco. Mas não tenho grandes esperanças, porque a vida de um espírito escritor nunca é satisfatória. Claro, se você dá a sorte de pegar alguém realmente bom, tem o prazer de observar um trabalho digno do seu esforço, a produção de um texto que flui exatamente como você pensou e tal. Mas quando é que um de nós vai ter algum reconhecimento? Por acaso algum livro tem escrito na capa “Shakespeare e Fulano de Tal, seu espírito escritor”? O cara da JK Rowling ganhou algum centavo por todos aqueles sete livros que fizeram ela ter dinheiro saindo pela janela? Quantos nomes são anunciados quando entregam o Nobel de Literatura?

Eu poderia até aproveitar que ela é ingênua o suficiente, a ponto de deixar eu me expressar diretamente num texto dela, e exigir que ela passasse a assinar meu nome junto, mas quem ia acreditar que as ideias de qualquer texto vieram de um ser imaterial chamado Gupso que só existe na mente dela? Ninguém, é claro. Às vezes nem ela mesma acredita que eu existo e acha que é tudo obra da sua imaginação brilhante. A minha situação é cruel e injusta. E como não posso fazer nada para mudar isso, nem mesmo me matar eu posso, porque não sou vivo, tenho que seguir aguentando. Aqui termina a exposição dos sofrimentos de Gupso, o espírito escritor.

Isabela Torezan

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