Na última

Aquele banheiro sempre foi meio estranho mesmo. Mas é claro que eu jamais esperava encontrar aquilo. Durante duas semanas não pudemos entrar lá, porque todas as cordinhas de descarga, já velhas, estavam sendo substituídas por modernos botõezinhos metálicos na parede. O das meninas tem só dez cabines, mas a reforma durou tanto tempo porque contrataram só um encanador. Quando enfim tiraram o aviso de “em reforma” da porta e pudemos parar de usar o banheiro minúsculo das funcionárias, eu fui toda alegre conferir as mudanças, contente porque seria a primeira a entrar lá, já que sempre cheguei na escola antes de todo mundo. Eu tinha sete anos, e para as crianças de sete anos até uma descarga nova é motivo de alegria. Uma coisa que aprendi bem cedo é que nenhuma menina usa o banheiro do canto, junto da parede, então sempre uso esses porque são os mais limpos. Fui direto para a última porta. Diferentemente das outras, estava fechada. Um papel preso com fita isolante dizia: “Pegue o papel do chão”. Empurrei a porta com cuidado, escutando o rangido das dobradiças. Encostei-a na parede. E então gritei como nunca tinha gritado antes, em meus longos sete anos de existência. Em vez do brilho metálico de um botãozinho novo, o que eu vi foi um homem enforcado na cordinha da caixa de descarga, o queixo encostado no peito e as pernas curtas pendendo a poucos centímetros do piso de azulejos.

Bilhete

Não sei quem vai ler isso. Mas pensei que podiam ficar assustados em me encontrar aqui e também não quero que pensem que fui assassinado. Eu me matei enforcado com a cordinha da milésima primeira privada que reformaria, depois de trinta e oito anos de trabalho. Minha carteira de trabalho está no meu bolso esquerdo. Não tenho filhos. Nunca tive mulher. O resto da minha família já morreu ou não lembra que eu existo. Podem usar o meu corpo para o que quiserem, para o que servir. Fiz isso porque descobri que o mundo não é como as privadas que eu conserto. Não dá para apertar um botão e mandar embora tudo o que é ruim. E o mundo tem muita porcaria. É uma privada quebrada. Adeus.

Isabela Torezan

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