Olha, eu nem sei onde estou. Na verdade, não sei nem se estou mesmo em algum lugar. Pode ser que eu esteja viajando numa espécie de limbo e ainda não cheguei ao destino final disso aqui. É tudo muito estranho.
Eu sempre achei que buracos negros eram uma invenção dos físicos. Não acredito nem em deus, que tanta gente acredita e procura provas da existência, vou acreditar numa suposta super-deformação no espaço-tempo (e que raios seria “espaço- tempo”?) que suga tudo o que aparece? Difícil. A Julia falou que eu não acredito porque não entendo as fórmulas que provam a existência dos buracos negros. Que eu não entendo as fórmulas é verdade. Mas também sempre achei difícil acreditar que um amontoado de números fosse a prova de que essas aberrações espaciais eram reais, só não disse isso pra ela, claro.
Mas hoje parece que o jogo virou. E olha que nem cheguei a ver a tal da fórmula ainda. Vou contar a história porque acho que vale a pena, mas vai ter que ser meio resumido porque só tenho umas folhas de papel aqui comigo. A gente nunca acha que vai precisar de muito papel quando espera ficar pouco tempo fora de casa.
Pois bem, hoje de manhã eu ia a pé pela Avenida JK, rumo ao hemocentro porque ia doar sangue. O clima estava bom, faz só uns minutos que estou aqui e já sinto falta daquele céu de inverno que tinha hoje. Quando estou sozinha ando rápido e ultrapasso as outras pessoas, de forma que cheguei em determinada faixa de pedestres antes de uma senhora que ia na mesma direção puxando um carrinho de compras. Foi quando olhei para o sinal do outro lado, para ver se podia atravessar, que eu vi aquela coisa. Bem no meio da rua, na frente dos carros e no meu caminho de atravessar, flutuava um senhor buraco negro. Como eu soube que era um buraco negro? Eu soube e pronto. Tenho certeza que era isso, o que mais ia ser? Mais fácil ser um buraco negro, coisa que já me disseram ser comprovadamente real, do que ser um portal para Nárnia ou algo do gênero. Bem que eu preferia que fosse um portal para Nárnia. Estou começando a me entediar aqui.
Eu olhei para os motoristas, para ver se eles estavam tão espantados quanto eu, mas ficou claro que eles nem estavam vendo aquilo. A senhorinha do carrinho de compras também não, porque continuava sua paciente caminhada até a faixa no mesmo passo lento e decidido, olhando para a frente. Nenhum dos outros transeuntes parecia incomodado. Olha que ótimo, um buraco negro exclusivo, só meu. Tudo o que eu sempre quis.
Pensei em dar meia volta e atravessar a rua em outro ponto, mas já era tarde. Comecei a sentir a força me puxando, tentei segurar a minha bolsa, mas lá se foi ela. Vocês não têm ideia do quanto é estranho ver sua bolsa ser sugada por um enorme círculo escuro flutuando no meio da rua. Mais estranho ainda é se sentir no lugar da bolsa: parecia que cada um dos meus ossos, dos meus órgãos e meus fios de cabelo estavam sendo puxados individualmente com muita violência. Descrevendo assim, parece que se passaram vários minutos, mas foi coisa de segundos. Só deu tempo de ver a senhora do carrinho parada na calçada, aparentemente fitando o sinal do outro lado. E aí tudo ficou escuro.
Ficou negro, para ser mais preciso. Eu não disse que era um buraco negro? Faz jus ao nome. Não tem nada aqui, não estou pisando em nada, não sinto nada em volta. Acendi a luz do celular para escrever, mas ela não ilumina mais do que o papel mesmo, de tão escuro que é. Certeza que estão pensando “nossa, que coisa inverossímil, ela é sugada por um buraco negro e tira papel da bolsa para escrever”. Desculpa se não parece verdade, é o que eu estou fazendo. Não dá pra pedir socorro, aqui não tem sinal de celular. Já tentei gritar, claro, mas nem ouvi minha própria voz. Acho que os físicos iriam se interessar por isso. Se eles soubessem que eu achei um buraco negro no meio da cidade…
Isabela Torezan
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