Normalmente, não escrevo sobre escrever. Mas Jimbo merece que eu deixe registrado sua história: ele foi o personagem mais peculiar que já criei. Tão peculiar que o texto em que era para ele estar nunca foi terminado.
Escrevo sempre à noite, e chovia na noite em que criei Jimbo . Não que eu ache que isso tenha a ver com o que aconteceu com ele, mas é um detalhe que eu quis colocar aqui. Era uma má noite para escrever, inspiração zero, mas eu precisava muito de algo no papel. Ou melhor, na tela. Então sentei na frente do computador e decidi que até a uma da manhã sairia um texto, por bem ou por mal. Coloquei letra Times, tamanho 12, justifiquei, fiz parágrafo. Coloquei o teclado alinhado com a borda da mesa. Ajustei o brilho da tela. Quando não faltava mais o que enrolar para ver se chegava alguma ideia, escrevi: “Jimbo era um homem normal”. Pode parecer pouco, mas agora eu já tinha um personagem. Alguém em quem me agarrar para começar.
Decidi comemorar esse sucesso tomando chá, levantei da cadeira e fui até a cozinha preparar uma caneca. Me dei conta que todas as minha três canecas estavam sujas e fiz chá numa xícara, enquanto tentava desenvolver a história de Jimbo. Precisava de uma profissão para ele, uma idade, uma aventura para ele passar e justificar o texto. Voltei para o computador decidida a acrescentar que ele era um corretor de imóveis relativamente bem sucedido. Quando ia começar a digitar, notei algo muito estranho na tela. Agora estava escrito “Jimbo era um homem excepcional”. Eu não acreditava no que estava vendo. Li e reli a frase diversas vezes, eu tinha certeza de que tinha escrito “um homem normal” antes do chá, como podia ter aparecido aquele “excepcional” ali? Meu gato sobe no teclado quando quer, mas só saem coisas do tipo “kdfehufejkwdk”.
Voltei na cozinha para verificar o saquinho do chá. Vai que eu tinha comprado um chá alucinógeno por engano. Mas o aspecto e o cheiro de camomila eram bem convincentes. Voltei para o computador, apaguei o “excepcional” e digitei “normal”. E aí quando coloquei ponto e dei espaço, lá estava o “excepcional” de novo. Eu não vi uma palavra se apagar e aparecer outra, como se algum hacker estivesse controlando meu computador à distância. Simplesmente “excepcional” estava lá, como se sempre estivesse estado.
Resolvi tentar continuar o texto assim mesmo. Escrevi : “Já na meia-idade, Jimbo era um corretor de imóveis calejado, cuja calvície parecia trazer uma certa confiança aos seus clientes”. E o que apareceu escrito? “Na flor dos seus trinta anos, Jimbo era já um diplomata de sucesso, cuja beleza estonteante o fazia objeto de desejo de todas as mulheres que conhecia”. De novo, eu não podia acreditar. Estava acostumada a ter dificuldade em escrever por falta de inspiração, mas ser atrapalhada pelo próprio personagem era novo para mim. Jimbo pelo jeito era absurdamente narcisista e não ia se contentar com os planos medíocres que eu tinha para ele.
Eu não ia me entregar sem luta. Sabia que não adiantava apagar o que ele tinha escrito, então acrescentei: “Infelizmente, todas que tentavam se relacionar com ele desistiam por causa do seu caráter bruto e pouco delicado.” . Jimbo não gostou. O que saiu foi “Ele dispunha de várias amantes simultâneas, todas loucamente apaixonadas por seu caráter romântico e suas incríveis habilidades sexuais”. Comecei a ficar irritada. Jimbo não se contentava em ser um homem de sucesso profissional, ainda tinha que fazer essa propaganda baixa?
Ficamos brigando por vários minutos. Como ele estava me deixando nervosa, comecei a aumentar o nível de depreciação. Eu colocava “homem atrapalhado e desorganizado, capaz de perder as meias no próprio quarto” e lá vinha ele com “mestre da organização pessoal”. “Avarento” virou “Incrivelmente generoso”, minha tentativa em descrevê-lo como disléxico terminou em uma ode às habilidades de oratória do maravilhoso Jimbo. Até que ataquei com um “estúpido como uma porta”, e ele devolveu um “gênio”.
Aí cansei. Não ia adiantar querer escrever uma história à revelia do próprio personagem. Aprendi essa lição de uma maneira meio estressante, porque fiquei quase meia hora digitando furiosamente coisas que não apareciam escritas de jeito nenhum. Jimbo estava determinado a ser fantástico.
Apaguei tudo. Contemplei aliviada a página vazia e fui lavar o rosto no banheiro. Depois de tudo aquilo, claro que voltei para a escrivaninha sentindo alguma tensão. Não é normal, mesmo para escritores, ter um personagem que você criou se manifestando na tela do seu computador. É um pouco assustador, saibam. E se eu disse isso, é porque já deu para imaginar que Jimbo não tinha desistido de mim ainda.
Quando cheguei no computador de volta, li, na página agora quase vazia: “Essa é a história da louca paixão de uma jovem escritora por seu maravilhoso personagem. Jimbo conquistou o coração de sua autora, que se encantou com suas inúmeras qualidades e habilidades.”
Achei um desaforo. Deletei o arquivo, desliguei tudo e fui dormir. Melhor ficar incomodada por não ter conseguido escrever do que ficar numa briguinha surreal e absurda com um personagem metido que ainda por cima tem um estilo brega de texto.
E é isso que eu queria contar. Garanto que foi uma experiência sobrenatural, talvez relatando assim não impressione tanto. Fica a minha recomendação para quem vai escrever uma história. Por via das dúvidas, comecem os textos com alguma característica positiva dos seus personagens. Isso evita que eles se irritem logo no começo. Mas não garanto nada. Eu, por exemplo, nunca mais escrevi em noites de chuva nem fiz chá em xícaras. Sempre fui cética convicta, mas vai que, não é mesmo?
Isabela Torezan
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