Eu nunca recebia correspondência nenhuma, fora as contas para pagar. Presente no aniversário, nunca; encomendas, não faço; cartas, ninguém recebe isso hoje em dia. Então imagine minha surpresa em receber um caixão em casa em pleno sábado de manhã. É, um caixão. De verdade. Com um morto dentro. Ou pelo menos acho que era isso que ele era quando chegou.
Vamos contar essa história direito. Eu sou uma pessoa muito sozinha. Moro numa casa um tanto isolada, fora da cidade. O vizinho mais próximo fica a dez minutos de caminhada e nem gosto dele, é um velho antipático. Ir para a cidade, só de carro e leva uma meia hora. Além do isolamento geográfico, minhas relações sociais não ajudam também. Nunca consegui ter amigos e tenho já vinte e sete anos e nunca tive um namorado. Trabalho numa empresa grande onde geralmente nem notam que eu cheguei. Já tive dúvidas até se sabiam que eu trabalhava lá. Dá para imaginar que eu não tenho muito com quem conversar.
Já me incomodei bastante com isso, hoje quase consigo ignorar a aversão que as pessoas têm por mim. Tenho ainda momentos de angústia: aquele sábado de manhã era um deles. Eu pensava em como seria bom só ter alguém com quem comentar uma parte de um livro ou o tamanho da lua, quando o caminhão de uma transportadora (era o que estava escrito nele, pelo menos) estacionou na frente de casa. O tempo estava seco e uma nuvem de poeira levantou da estrada mal asfaltada quando o caminhão freou. Dele desceu um rapazinho, bastante desajeitado segurando uma prancheta. Pensei que devia fazer pouco tempo que ele trabalhava como motorista dessa transportadora. Até porque ele devia ter tirado carteira de habilitação há pouco.
Olhando os papéis da prancheta, confirmou meu nome e endereço e, pedindo desculpas, perguntou se eu não podia ajudá-lo a tirar a encomenda do caminhão. Tinha vindo sem ninguém mais. A essa altura eu já estava bastante curiosa. Eu não tinha encomendado nada, e me chega algo tão grande que uma pessoa sozinha não pode carregar? Meu nome e endereço estavam perfeitamente corretos nos papéis da transportadora. Quis perguntar de onde vinha a encomenda, mas o rapazinho cortou meu ímpeto investigatório dizendo que ele não sabia nada sobre encomenda nenhuma, nunca. Sua função era apenas dirigir até o endereço correto, conferir o nome do destinatário e entregar o que fosse que tivesse que entregar.
Que, no meu caso, era um caixão. Não um senhor caixão, mas um modelo simples, de madeira escura envernizada e com alças de latão. Peguei de um lado, ele do outro, e levamos até a varanda. Se eu soubesse que tinha alguém dentro, com certeza teria protestado e me recusado a ficar com aquilo antes que o caminhão saísse cantando os pneus e aumentando a nuvem de pó na estrada. Mas eu estava achando que era só uma brincadeira estúpida de alguém e que não valia a pena discutir com aquele rapaz tão cioso das suas responsabilidades no emprego.
Sentei numa cadeira do lado da minha nova e original peça de mobília. O que eu ia fazer com aquilo agora? Por algum motivo, abri-lo não tinha de forma alguma passado pela minha cabeça. Eu não estava pensando em um morto quando olhava aquilo, mas de qualquer forma quem ia pensar em abrir um caixão fechado? Eu não sou tão estranha assim.
Quando não sei o que fazer, eu leio. Então peguei na sala o livro que estava lendo e sentei de novo na cadeira na varanda. Era uma coletânea de contos do Poe e cheguei em um muito engraçado, The Spectacles, em que o personagem se casa com a própria trisavó achando que é uma moça linda de vinte e sete anos. É bem engraçado mesmo. E eu ri sozinha um pouco quando li a descrição da velha, eu rio e choro sozinha quando leio.
E aí ouvi.
– O que é engraçado? Se for o final não conta.
Olhei para o lado, de onde vinha a voz. A tampa do caixão tinha sido deslizada em noventa graus e agora estava atravessada sobre ele. A cabeça do meu mais novo parceiro de conversas saía pela abertura, umas pétalas de flor grudadas no cabelo.
-Estar morto não é ruim não, eu tinha sossegado já. Mas é que eu não posso ouvir alguém rindo, preciso saber do que é. – ele disse, por causa da minha expressão de espanto.
Só espanto. Porque eu não sou medrosa, nunca fui. E precisava saber se ele servia mesmo para conversar.
-Sabe em qual fase a lua está hoje? – perguntei.
Isabela Torezan
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