Às vezes a gente vê pessoas fazendo coisas estranhas na rua e pensa só “puxa, que coisa estranha isso que ele (a) fez”. E logo esquecemos o que vimos. Mas se você vê uma coisa que achou estranha e faz o exercício de imaginar os muito possíveis motivos de a pessoa ter feito aquilo, é mais difícil de esquecer depois. Eu acho legal fazer isso, mas não é sempre que dá certo. Queria contar aqui uma vez em que não consegui pensar num motivo bom para a conduta de uma mocinha que vi na rua.
Meu ponto de observação era o assento do passageiro de um carro estacionado no lado esquerdo da rua, em frente a uma loja de móveis. Eu sentei meio de lado no banco justamente para ver as pessoas passando na calçada, e vi uma moça que vinha andando, celular na mão. Ela veio, lendo ou digitando no celular, agora já não lembro mais, e chegou na frente da loja de móveis. Sem diminuir o passo, ela passou pela entrada da loja, andou mais um pouco (sempre olhando o celular) e quando estava quase passando em frente à loja seguinte, estacou. Parou de olhar o celular, deu meia volta, entrou por uma das portas da loja de móveis (que tinha duas entradas, só separadas por um pilar) e se aproximou de um sofá. Um sofá bege, atrás dos primeiro móveis que ficavam mais perto da porta. Usando os joelhos, ela empurrou o sofá uns dois palmos para o lado, olhou a nova posição, pareceu satisfeita e saiu pela outra porta. Voltou a olhar o celular e seguiu o caminho de antes.
Fiquei intrigada. Ela não estava, aparentemente, vendo o sofá enquanto passava na frente da loja, porque não tirou o olho da tela. A loja inteira era uma bagunça. Porque arrumar uma peça? E que diferença fez estar aquele sofá centímetros à direita? Quem era ela para se incomodar com a posição de uma coisa dentro daquela loja? E porque um móvel que nem estava à frente, mais à mostra? Porque exatamente aquele sofá, aliás? Todas essas perguntas passaram pela minha cabeça quando observava a moça ir embora, novamente absorta pelo aparelho.
Não cheguei a nenhuma hipótese para atitude tão pequena e sem contexto. Mas depois de forçar minha imaginação tentando bolar uma história para a arrumadora de sofás, cheguei à conclusão de que tem coisas que são assim mesmo. Aquilo não fez sentido nenhum para mim, uma mera observadora de um ponto de vista único, pode ser que para ela fizesse todo o sentido do mundo. E eu posso morrer sem ser capaz de compreender porque alguém entraria em uma loja de móveis para empurrar um sofá por alguns centímetros e sair, e tenho que me conformar com isso. Mas se você conseguiu imaginar um motivo para a atitude aparentemente despropositada daquela transeunte, por favor me avise. Ainda estou bastante curiosa.
Este próximo texto não tem força suficiente para merecer uma postagem só dele, por isso ele é um bônus da crônica. Só porque é alguma coisa que eu preciso escrever há meses e ainda não tinha conseguido.
Porque eu leio
Eu queria explicar porque eu leio. Porque eu leio tanto, e todo dia. Já me perguntaram isso uma ou duas vezes, e eu respondi que era porque eu gostava. Mas a minha relação com os livros é muito complexa para uma resposta medíocre dessa. Vamos ver se conserto isso.
Eu leio porque me sinto cansada e ler é descansar de ser. Eu não preciso ser eu mesma quando estou lendo, eu posso ser e sentir tudo o que está no livro, tudo o que são e sentem os personagens, sejam eles gente boa ou ruim, com vida tranquila ou com angústia, não importa, é outra vida, não é a minha, e eu posso dar uma variada pelo tempo em que estiver lendo.
Eu chego ao fim do dia cansada de muitas coisas. Cansada de me sentir sozinha. Cansada de esperar alguma coisa diferente. Cansada de me arrepender de comemorar sucessos quando fica claro que eles não me aproximam realmente de ninguém. Cansada de me esforçar para que se interessem por mim, e ao mesmo tempo cansada de me culpar por achar que não faço isso o suficiente. Cansada de notar o medo ou desinteresse das outras pessoas. Cansada de fingir que estou feliz, ou cansada de reprimir felicidade para que vejam que não sou feliz. Cansada de esperar, de ter sempre esperado. Cansada de me culpar por não ser absurdamente feliz e agradecida porque tenho tudo o que preciso. Cansada de que desistam de mim e de achar que vão sempre desistir. Cansada de saber que acham que não sinto nada, quando eu sinto tanta coisa. Cansada de querer desesperadamente que se importem comigo e mostrem isso e cansada da carência de afeto. Cansada de ser eu mesma e cansada da sensação de fracasso que dá perceber que nunca vou conseguir ser diferente porque na verdade não quero.
O que isso tudo tem a ver com livros? Imagine que tudo isso, tudo mesmo, simplesmente deixa de existir quando abro um livro. Todo esse peso, tudo o que cansa, nada, nada existe mais. O que existe é a angústia de Ana Karenina. A desorientação de Gregor Samsa. As divagações de Holden Caulfield. Ou qualquer sentimento, pensamento, de qualquer personagem que eu esteja lendo. E pronto, é como se fosse uma troca de turno, agora eles vivem por mim e eu posso descansar. Então eu leio, e descanso, e posso viver mais depois. E isso é maravilhoso.
Isabela Torezan
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