Maria Julia,
Sei que você deve estar achando estranho receber uma carta minha. Primeiro porque ninguém escreve cartas, nem email as pessoas usam mais. E segundo porque cartas pessoais, começando só com o nome da pessoa, como essa aqui, são escritas para amigos. E nós nunca chegamos a ser amigos, eu sei.
Justifico-me. Como receber uma carta é estranho, você vai ler. É curioso, vem em papel palpável, atrai, eu sei que atrai. Um email você talvez nem veria, mensagens podem ser ignoradas, além de oferecerem muito pouco espaço. Quanto ao fato de que não somos íntimos o suficiente para uma carta informal, digo que, se fosse por mim, teríamos conversado por mais do que aqueles poucos dias. Tive certeza, já nas primeiras coincidências de gostos, de que seríamos grandes amigos. Você não deve ter achado o mesmo, ou se assustou comigo, já aconteceu bastante com outras pessoas. Então talvez eu esteja sendo um pouco incisivo, mas não achei que você fosse se importar muito.
Vamos direto ao motivo principal. Não sei se você se lembra de que me disse que costumava lembrar muito dos seus sonhos. E eu contei que nunca me lembrava dos meus, na verdade nunca tinha me lembrado de um sonho a minha vida toda. Você achou isso um absurdo, o Homem Que Não Sonhava, como era possível, nunca tinha ouvido falar disso. Lamentou por mim, você gostava dos seus sonhos, na maioria das vezes. Eu expliquei que, como nunca tinha sonhado, não sentia falta, já que nem sabia como era. Pois então.
Noite passada, eu sonhei. Pela primeira vez na vida. Foi horrível, acredito que seja o que chamam pesadelo, mas enfim, foi um sonho. Depois que me recompus da angústia que ele me causou, consegui ficar um pouquinho feliz por ter sonhado e a primeira coisa em que pensei foi em te contar o sonho, porque você me contou alguns dos seus que eu adorei, até anotei alguns na época.
Se você for sensível o suficiente, vai entender o quanto esse sonho é importante para mim (é meu primeiro!) e vai ler com bastante atenção a partir daqui.
Eu sonhei que acordava na minha cama de manhã, me vestia, tomava café e saía de casa para trabalhar, como faço todo dia. Até aí, tudo bem. Começa a ficar estranho quando cheguei na banca de jornal e o tio da banca não me cumprimentou pelo nome, como sempre faz. Tratou-me como se eu fosse um cliente desconhecido. Depois, quando cheguei no trabalho, dei bom dia para a faxineira, que ainda limpava o chão do restaurante, com todas as cadeiras em cima das mesas. Ela me olhou como se eu fosse um ser alienígena que tivesse acabado de adivinhar o nome dela e respondeu seca. Eu perguntei se estava tudo bem (é comum nos sonhos nossa voz não ser exatamente a mesma de quando acordados?) e ela perguntou quem era eu, olhando para o meu uniforme e a touca que eu segurava nas mãos. “Ora, dona Renata”, eu disse, no sonho, “trabalhamos juntos há cinco anos”. “Eu não conheço você, moço”, ela disse.
Nessa parte já comecei a achar assustador. E também a partir daqui fica um pouco nebuloso, não consigo lembrar com tantos detalhes como as partes da banca de jornal e da dona Renata, mas acredito que seja normal com sonhos. Para ter sido o meu primeiro, está muito bom. Acontecia o seguinte, no sonho: todas as pessoas que eu encontrava eram gente que eu conhecia, com quem convivia todo dia, e nenhuma delas dava nenhuma mostra de saber quem eu era. Meu chefe me expulsou da cozinha e ainda me acusou de ter roubado o uniforme de outro auxiliar. Meus colegas, um a um, chegaram para trabalhar e não deram a mínima para mim, sentado no chão, do lado de fora da cozinha. Ninguém perguntou porque eu estava sentado do lado das latas de lixo em vez de já estar trabalhando lá dentro.
A próxima parte de que me lembro (não sei como cheguei nela, no sonho) é de estar na casa dos meus pais, e nenhum deles me reconhece. Minha mãe afirma que nunca teve filhos. Meu pai me olha desconfiado, talvez pensando que sou louco.
Depois disso encontrei inúmeros outros conhecidos, com quem tenho menos contato do que o pessoal do trabalho e meus pais, e cheguei à conclusão (na verdade, parece que nos sonhos percepções são mais comuns do que conclusões, não acha?) de que eu era agora um desconhecido. Um desconhecido completo, porque ninguém, ninguém mesmo, sabia quem eu era. Era como se meus trinta e três anos vivendo e conhecendo pessoas não tivessem existido. Para todos os efeitos, eu era inexistente, já que não significava nada para ninguém. Não era um cliente assíduo, não era empregado, não era colega de trabalho, não era filho, não era nada. Era só eu, o que no sonho era o mesmo que nada. Não estava fazendo falta na vida de nenhuma daquelas pessoas. Não lembro exatamente como terminou, sei que acordei assustado, ainda sentindo um nó na garganta.
Talvez você estranhe eu me assustar tanto com um sonho desses. Afinal, não aconteceu nada violento, não morreu ninguém. Mas eu explico. Sonhei pela primeira vez na minha vida, e pela primeira vez senti alguma coisa enquanto não estava acordado. Até então, dormir era para mim escapar das coisas que sentia durante o dia, porque, como nunca sonhava, dormir era como morrer durante algumas horas. E na primeira vez que sonho, o que sinto é a angústia de me sentir isolado, sozinho, não desejado. Uma angústia que sinto vivendo. Imagine você: dormir e conseguir sentir algo dormindo pela primeira vez, e esse algo ser um sentimento ruim que te acompanha há anos. Fui bem infeliz no meu primeiro sonho.
Enfim, só queria mesmo te contar como foi. São dez da noite agora e ainda não dormi depois dessa primeira noite sensitiva, estou dividido entre a curiosidade em saber se vou sonhar de novo e o medo de sonhar com outra coisa ruim da minha vida cotidiana de acordado. Sei lá, vai que eu sonho com o pinga-pinga do chuveiro que nunca consigo consertar. Ou com o gato da vizinha, que sempre encontro comendo o que estiver em cima da minha mesa (e não faço a menor ideia de como ele entra em casa, isso sim que é assustador, aliás). Ou pior, posso sonhar com o gato dentro do meu banheiro, bebendo o pinga-pinga do chuveiro. Dizem que sonhos misturam as coisas.
Mas me deseje bons sonhos, então, Maria Julia. Deseje que eu sonhe que somos grandes amigos, já que isso não acontece enquanto estou acordado. Não quero sonhar sempre coisas que acontecem de dia.
Bons sonhos para você também,
Carlos.
Isabela Torezan
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