Gostava de ir caminhando para o trabalho, não era longe. Era bom para pensar e também não se sentir muito sedentário. Além disso, fazer o mesmo caminho a pé todos os dias permitia observar as mesmas coisas, nos mesmos lugares, manhã após manhã. Isso para ele era essencial, ter alguma parte do seu dia que ele tinha certeza de que seria sempre igual. Seu sono podia ter sido bom ou ruim, Ana podia ter sido um amor ou muito rabugenta na noite anterior, seu dia de trabalho podia se anunciar como ótimo ou péssimo, tudo varia. Mas a distância entre sua casa e o trabalho sempre seria de quatro quadras, as casas e prédios do caminho seriam sempre os mesmos, o ipê na terceira esquina sempre estava lá (ele preferia não pensar na possibilidade de um dia cortarem a árvore). Coisas iguais, coisas seguras.
Aquela manhã de outubro tinha tudo para ser a manhã de mais um dia como os outros: uma porcentagem de coisas que variam e outra de coisas iguais. O equilíbrio maravilhoso e perfeito da vida, que ele tanto adorava. Mas assim que pisou fora do prédio, percebeu que tinha algo errado. Algo errado com aquele dia. Começou a caminhar pela calçada, fazendo o caminho de sempre, e começou a achar que tudo estava perfeito demais.
De repente, uma espécie de nova consciência tomava conta dele. Ao olhar para todas as coisas em volta, não conseguia mais enxergar simplesmente os objetos e construções que estavam ali todo dia. Acabou parando no meio do caminho, em frente a uma lixeira vazia, e tentando entender porque se sentia tão espantado por ver aquela lixeira ali.
Ele passava e olhava aquela lixeira todos os dias. Poucas coisas eram mais familiares do que aquela visão. No entanto, ele agora sentia que o fato daquela lixeira estar naquele lugar era algo fantástico. Algo surreal. Era tão estranho ver aquele objeto ali que ele teve certeza de que, se a tocasse, a lixeira se desintegraria. Não sabia bem o que uma coisa tinha a ver com a outra, mas estava achando aquela estrutura simples de metal algo tão singular que sua capacidade de se manter em pé parecia frágil, até falsa.
Sem pensar no quão estranho deveria estar, parado na calçada encarando uma lixeira como se ela fosse um unicórnio dourado, ele esticou a mão para tocá-la. E a lixeira desapareceu. No momento em que seus dedos tocaram o metal enferrujado, toda ela pareceu oscilar levemente por alguns milionésimos de segundo e então não existia mais.
Ele recuou, assustado. Olhou para a própria mão, como se ela fosse dar uma resposta. De repente sentiu uma necessidade imensa de sentar, e andou o mais rápido que conseguiu até a próxima quadra, onde tinha uma praça com alguns bancos. Mas assim que sentou em um deles, o cimento se desintegrou, tão fácil e rapidamente quanto o metal da lixeira. Ele se viu sentado no chão, o traseiro das calças úmido do orvalho da grama, olhando desolado a rua à sua frente. Ficou preocupado que alguém tivesse visto aquele tombo ridículo, mas ninguém passava na calçada e os carros eram rápidos demais para ele notar se alguém tinha olhado.
Ele se levantou e, decidido a entender o que estava acontecendo, encostou a mão em uma árvore da praça. Que desapareceu. Um poste. Sumiu. Outra lixeira, essa cheia. Desintegrou, com o lixo junto. Tudo o que tocava oscilava levemente como a primeira lixeira e no instante seguinte já não existia mais. Ele se sentia como se estivesse em um cenário de papel de onde alguém estava tirando as peças, estragando a constância perfeita do seu caminho de todos os dias.
Desesperado, saiu correndo pelo resto do percurso até o trabalho, faltava pouco para chegar. Mas assim que colocou a mão na porta do prédio da empresa, o prédio inteiro desapareceu. Tinha suportado, assustado, ver coisas “pequenas” como o banco e o poste sumirem. Mas ver o prédio do seu trabalho sumir por completo na sua frente, sem deixar vestígios, deixando um espaço vazio como se nunca tivesse existido, foi demais. Estava com medo agora, e quis estar em casa, com Ana, protegido. Mas isso o lembrou de que provavelmente sumiria com o prédio onde morava, se tocasse no portão, e sumiria com Ana também. Sentia-se acuado e sem ação.
Mesmo assim, começou o caminho de volta, agora já sem correr, tomando o cuidado de não tocar em nada. Não conseguia entender o que acontecia, mas de repente sua vida parecia tão de mentira, já que podia perder partes do cenário tão facilmente. E ele não gostou nada disso. Tentava pensar no que faria quando chegasse em casa quando quase trombou com Ana no meio do caminho.
– Você esqueceu sua pasta em casa. Olhei dentro e tá cheio de papéis, achei que fosse precisar hoje. Ia te levar.
Ela segurava sua pasta de trabalho, sem a qual ele teria muito pouco o que fazer no escritório. Ver Ana o deixou feliz, aliviado em meio à angústia de ter desintegrado várias coisas nos últimos minutos. Nunca tinha pensado que ter o poder de fazer coisas sumirem fosse ser tão depressivo. Sem pensar, ele sorriu e esticou o braço para pegar a pasta. Que, claro, sumiu. Ana olhava estarrecida para a própria mão, ainda na posição de segurar um objeto.
– Como…?
Novamente angustiado, ele tentou pensar no que dizer.
– Não sei, Ana. Já fiz sumir até o prédio do escritório.
– O banco da praça! Também foi você?
– Foi. E uma árvore, duas lixeiras, um poste ali.
E de repente veio o pior dos pensamentos.
– Não posso tocar você. Não quero que você suma.
– Isso é absurdo. Percebe que acabou de me comparar a lixeiras e postes? Acha mesmo que eu ia sumir no ar igual a sua pasta velha? – ela tinha ficado um tanto ofendida.
Não, ele pensou. Ana não podia sumir. Ana era real, não conseguia imaginar ela oscilando daquele jeito e desaparecendo. Ela não era de mentira, como ficou parecendo que eram a lixeira, o poste, a árvore, o prédio. Tremendo, esticou o braço para tocar o rosto dela. Sentia muito, muito medo. Se Ana desaparecesse na sua frente, sob o seu toque, ele não saberia o que fazer com a vida depois.
Mas ela não desapareceu. Afundou os dedos na bochecha dela, maravilhado, e ficou olhando a cara de brava que ela fazia.
– Viu? Não sei pra que essa tremedeira.
Ana era importante de verdade e não se desintegrara. Aquilo bastou, e ele se sentia bem agora. Decidiu resolver depois o seu problema com o resto das coisas e abraçou Ana, com força, colocando seu corpo em contato com o dela o máximo que conseguiu.
Isabela Torezan
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