Era uma vez um elefante infeliz chamado Emsi. Emsi vivia nas savanas africanas e tinha a vida que todo elefante livre tem. Vivia, por sorte, longe da ameaça de caçadores e tinha água e comida em abundância ao seu dispor. Emsi, ainda assim, era infeliz. Ele se sentia um elefante vazio porque não era capaz de responder a si mesmo à pergunta “Por que estou nesse mundo?”. Emsi era um elefante filosófico. Ele queria saber por que tinha nascido e o que deveria fazer antes de morrer, mas por mais que tentasse não conseguia encontrar a resposta. E sendo um elefante, que é um animal muito inteligente, Emsi ficava muito angustiado de ser privado de um conhecimento e se considerava infeliz.
Emsi decidiu então perguntar aos outros animais, na esperança de que algum deles soubesse o sentido da vida e pudesse ensinar a ele, acabando com o seu sofrimento. O primeiro animal que Emsi encontrou foi o flamingo.
– O sentido da vida – disse o flamingo, alisando as penas – é fazer com que você seja notado. Se repararem em você, é porque você significa alguma coisa, logo, sua vida já fez sentido.
Emsi considerou a resposta do flamingo e chegou à conclusão de que ela não podia ser verdadeira. Ele correu com seu peso de elefante pelo meio da savana e foi notado por absolutamente todos os outros animais presentes, e ainda assim não descobriu para que tinha nascido. Certamente não era para correr pelo meio da savana berrando o berro dos elefantes e esperando que olhassem para ele.
Ele decidiu, então, perguntar para a zebra.
– O sentido da vida – disse a zebra – é encontrar seu grupo e se sentir parte dele. Quando isso acontece, tudo faz sentido.
E ela saiu correndo com seu bando.
Emsi também não se sentiu satisfeito com essa resposta, porque fazia parte de uma manada de elefantes, mas não se sentia como eles nem achava que as coisas faziam mais sentido quando estava no meio dos companheiros. Nenhum deles se ocupava do sentido da vida, por exemplo.
Em mais uma tentativa, Emsi procurou o leão para perguntar sobre o sentido da vida. Encontrou-o defendendo ardorosamente sua esposa e os filhotes de um ataque de hienas. “Talvez” – pensou Emsi, vendo o quanto o leão amava a esposa – “o sentido esteja em encontrar o amor da sua vida.”. As elefantas, no entanto, não gostavam muito de Emsi. E ele pensou que não era muito justo que o sentido da vida fosse um que ele não pudesse ter. Ele tinha certeza de que a vida tinha um sentido, e se ele era vivo tinha que estar compartilhando desse sentido.
Até que Emsi encontrou a coruja, animal tido por muito sábio também.
-Pare de procurar – disse a coruja – O sentido da vida dos outros não será o mesmo que o seu. Na hora certa, você descobrirá qual é. E pode ser que ele não seja o sentido de mais ninguém.
Emsi agradeceu o conselho e se afastou tristonho. Tudo o que podia fazer era esperar e esperar, segundo a coruja. E ter esperança de que um dia encontraria uma resposta.
Emsi viveu os muitos anos da vida de um elefante, sempre com o sentimento de vazio que fazia dele um elefante triste. Quando chegou nos seus sessenta e sete anos, uma idade bem avançada para um elefante africano, Emsi se deitou para morrer. Na sua frente, havia uma poça d’água na qual ele pretendia observar o sol refletido até que seu coração velho resolvesse parar. Quando já fazia algumas horas que ele observava o sol, percebeu uma movimentação no chão do lado direito da poça. Era um grupo enorme de formigas fazendo a mudança de formigueiro, várias carregavam ovos nas costas. Elas pararam quando chegaram na poça e pareciam discutir entre si. Emsi moveu a cabeça cansada um pouco para o lado e perguntou qual era o problema das formigas.
– Precisamos estar do outro lado da poça antes que escureça. Mas não podemos atravessar, e contornar é um caminho muito longo, quando escurecer não vai ter nem metade de nós do outro lado.
Emsi teve então uma ideia. Esticou a tromba e fez algumas formigas subirem, e começou a transportá-las de um lado ao outro da poça. Em poucos minutos todo o formigueiro itinerante estava na outra margem. As formigas ficaram exultantes. Não paravam de agradecer Emsi pela ajuda, e garantiam que ele era o melhor elefante que já haviam conhecido e que jamais se esqueceriam de sua ajuda. Naquele momento, Emsi começou a sentir algo diferente. Se sentia preenchido. Pela primeira vez, não sofria com o vazio de significado. Ter ajudado as formigas e sentir que elas se beneficiaram da sua ajuda fez tudo parecer com sentido para Emsi. Então, era para isso que ele estava nesse mundo. Emsi esticou a tromba sobre a poça d’água, desmanchando o reflexo do sol, e morreu feliz.
(A moral da história pode ser “antes da tarde do que nunca”, ou “todos somos diferentes” ou ainda “quem espera sempre alcança” etc. Ou seja, a verdadeira moral aqui é “faça sua própria moral”).
Isabela Torezan
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