Sou muito mal compreendida. Oitenta, não, uns noventa por cento da população mundial têm medo de mim. Vocês fazem ideia do que é existir debaixo de tanta aversão? Ser permanentemente associada a coisas negativas? Não, vocês não fazem, vocês são só pessoas comuns, sem a minha carga de responsabilidade absurda e diária. Porque reclamam um monte do meu trabalho, mas queria ver se eu resolvesse tirar férias. Já pensou, ah, esse mês não morre ninguém não. Enquanto isso, sabem quantos bebês nasceram? As coisas têm que trabalhar em equilíbrio, amigos. E vocês, belas pessoas saudáveis que ficam trocando meu nome por eufemismos bregas (“partida” eu acho terrível), não se lembram das pessoas doentes, cansadas dessa vida, que me esperam ansiosamente. Eu as amo. Para elas sou uma heroína libertadora, e não essa monstra que vocês desenham. Claro, não estou falando que sempre gosto de fazer o que faço. Em grande parte das vezes pareço injusta mesmo, como me acusam. Mas o que eu posso fazer? A Vida é injusta também, vocês vivem reclamando dela e não adianta nada. Ela nem dá ouvidos a vocês. Eu me acho bem mais sensível, na verdade, porque fico bem mal quando falam que levei a pessoa errada. É me acusar de cometer um erro, e no meu trabalho as coisas são irreversíveis. Eu sinceramente peço desculpas por todos os inocentes e os que levei muito cedo, e aliás, pensando bem, não acho que seja realmente erro ou culpa minha, porque eu não faço escolhas, sabem. Revelação: o Acaso está por trás de muitas coisas. E se repararem bem, quase sempre os injustos são vocês mesmos. Fui obrigada a agir por causa de alguma dessas coisas estúpidas de vocês, guerra, umas distribuições insanas do dinheiro, etc. Enfim, pensem bem antes de só reclamar. A parte do medo também me incomoda muito. Vejam bem, qualquer coisa que acontece antes de eu chegar pode ser extremamente doloroso. Mas eu juro que a minha chegada é completamente imperceptível. É coisa de milésimos de segundo. Você é, plim, não é mais. É só isso. Então pra que esse pavor todo? Você não vai saber que parou de existir, porque não vai existir mais. É até bobo falar isso, mas é assim. Porque se apavorar tanto com alguma coisa que você nem vai ver nem sentir? Normal ter medo de perder alguém, porque você sente a perda da pessoa, mas não entendo porque vocês têm medo de não se terem mais. Garanto que vocês não vão saber dessa perda. Sabe, meu trabalho já é difícil. Muito difícil. Então por favor, pessoal, ajuda se vocês não me demonizarem tanto, não pensarem em mim com tanta angústia. Tudo o que eu faço, quando não é culpa de um de vocês mesmo, ou de qualquer coisa biológica, é culpa do Acaso, que nem eu nem vocês controlamos. Não estou pedindo para me amarem, os poetas do Romantismo bradavam isso mas eu acho que era pura licença poética, só tentem não me odiar tanto, porque eu tenho que continuar meu trabalho do mesmo jeito. Pensem nisso.
Isabela Torezan
Leave a comment