Essa é uma história para as pessoas que têm problemas de memória. Aqueles mais graves, que fazem esquecer até o nome do cachorro e o aniversário da mãe, e também aqueles mais simples, que provocam falhas na compra de mercado e portas destrancadas.
Eu tinha um problema de memória desses mais graves. Esquecia o que tinha dito minutos antes, esquecia o nome de pessoas novas do trabalho mesmo depois de elas completarem um mês lá, me esquecia de responder as mensagens do meu chefe (quase fui demitido diversas vezes, meu chefe é um homem realmente muito paciente), esquecia de comprar comida (e só percebia quando abria o armário vazio). Já esqueci bolos no forno, fogão ligado e água fervendo. Já esqueci que tinha marcado um encontro com uma moça e a deixei esperando. Esqueci de trocar de roupa e fui trabalhar de pijama. Esquecia meu aniversário todos, todos os anos. Lembrar o aniversário dos outros, então, fora de cogitação.
Percebem que falo tudo no passado? É porque hoje já não sofro mais desse mal. E eu gostaria muito que isso significasse eu não sofro de mal nenhum, mas a verdade é que agora sofro do mal oposto. Vamos ver se minha narrativa explica melhor do que estou falando.
Certa manhã (tem tantas histórias que começam assim, tenho a impressão de que fatos bizarros têm sempre sua manifestação inicial pela manhã) eu me preparava para ir ao trabalho e verificava pela centésima vez minha pasta de papéis. Conhecendo minha propensão a esquecer as coisas, criei o hábito de verificar várias vezes meu material. Foi naquele momento que acendeu uma luzinha em algum lugar da minha cabeça e eu lembrei “preciso tirar o bife do congelador”. Assim, do nada, me lembrei disso. O problema é que não tinha nenhum bife no congelador, nunca teve, até porque eu não tenho congelador. Como então eu tinha tanta certeza de que precisava fazer aquilo e tinha aquela ação, para mim tão estranha, como uma nota mental?
Resolvi ignorar o lembrete incomum e fui embora. Encontrei minha vizinha de porta e pegamos o elevador juntos, ela é uma senhora já viúva, mas que passa o dia fora fazendo coisas da igreja. Desceu com uma cara de preocupada, carregando uma caixa de papelão enorme que ela se recusou a me deixar levar até o carro (ela detesta parecer dependente de homens). E a última coisa que ela disse, antes de se despedir, foi “Estou com a impressão de que esqueci alguma coisa”. Na hora eu não soube porque, mas fiquei profundamente incomodado com essa frase.
Acabei esquecendo o incidente e trabalhei a manhã toda, comprei meu almoço e fui para casa comer. Quando cheguei, a porta dessa vizinha de quem falei estava aberta e um verdadeiro escarcéu invadia o corredor.
-Como assim, não tem almoço?! – era a voz da vizinha num tom que eu jamais imaginei que ela fosse capaz de atingir.
-Ah, eu cheguei aqui na cozinha e fui fazer as coisas, mas a senhora não tinha tirado a carne do congelador, achei que não vinha almoçar hoje… Como que eu ia fazer o bife se ele tá congelado? – a empregada se defendia do ataque
-Congelado? Como assim não tirei a car… Eu esqueci de tirar o bife do congelador?!
-Esqueceu, sim senhora. Pode olhar que ele tá lá.
Eureca. Minha memória tinha “capturado” a da dona Ivone, que sempre se lembra de tirar o que deve ser cozinhado no dia antes de sair de casa, de forma que quando a empregada chega para fazer o almoço encontra a carne já descongelada . Eu sei desse hábito porque escuto o barulho dela mexendo no congelador todas as manhãs. Como foi que pensei nesse absurdo como justificativa para a minha lembrança estranha? Eu tenho inclinação a acreditar em coisas inusitadas, é isso.
Essa foi só a primeira vez. Meus outros vizinhos são uma família de quatro pessoas, e de tarde “lembrei” que deveria buscar as crianças na escola. No dia seguinte, passei pelo porteiro e “lembrei” que era dia de varrer a calçada. “Lembrei” de ligar para a minha mãe e dar feliz aniversário, mas a minha mãe já morreu há vários anos. O resultado disso foi as menininhas do vizinho esquecidas na escola, a calçada do prédio coberta de folhas e a mãe de alguém, que ainda não descobri quem é, provavelmente muito triste porque o filho não ligou no aniversário.
Aí vi o pai da família chegando em casa depois das sete horas, acompanhado de duas chorosas garotinhas, e decidi tentar minimizar os efeitos da minha nova condição mnemônica. Comecei a avisar as vítimas do meu assalto involuntário de memórias, sempre que eu sabia quem era. Tento disfarçar que estou lembrando uma coisa pessoal alheia da qual eu não deveria saber nada, mas nem sempre dá certo. É bastante cansativo, acreditem. E às vezes meio constrangedor. Minha colega não gostou que eu a lembrasse da reunião no Alcóolicos Anônimos, nem entendeu como eu sabia daquilo. Me arrependi muito de ter avisado, mesmo. Lembrei a senha do banco do meu chefe também, mas achei melhor não dizer isso a ele. Não consegui pensar em nenhuma explicação para substituir a verdade absurda de que agora surrupio lembranças involuntariamente. E meu chefe não tem a minha propensão a acreditar no inusitado.
Enfim, se antes sofria de lapsos de memória causadores de muitas confusões na minha vida, agora sou castigado com uma avalanche de lembranças diárias que nunca são minhas. Estou considerando visitar um neurologista ou algo assim, embora ache que não tenha nada que possam fazer por mim. Já disse que considero minha situação um fato inusitado, e não uma doença, então não sei se um médico resolveria o problema. Vou vivendo assim por enquanto, na esperança de que isso diminua ou eu me acostume.
Aliás, estou lembrando de alguma coisa. Você não esqueceu a luz do banheiro acesa, não? Se eu fosse você, ia lá agora verificar.
Isabela Torezan
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