Longe

Existe uma grande diferença entre admirar e gostar. Pelo menos quando se refere a alguém. As pessoas o admiravam muito, reconheciam seus sucessos, elogiavam sua inteligência. Ele era um homem muito capaz e não podia reclamar de ser um talento não reconhecido, seus esforços até então sempre tinham sido recompensados com tudo o que ele tinha estabelecido como meta. “Se eu fosse como você!”. “Parabéns, você merece, eu já esperava por isso!”. “Tenho certeza que você vai longe”. “Mas você é muito melhor que todos nós”. Ele era, realmente, um homem admirado. Mas, ao contrário do que pode parecer, isso não o fazia completo.

Sexta à noite e o homem admirado estava em casa, em sua poltrona ao lado do telefone, pensando que trocaria toda aquela admiração por um pouco de proximidade. Pensava no cantor de uma banda de rock que admirava quando menino e no quão longe aquele cantor ficava dele: admiramos coisas distantes, inatingíveis. Coisas que na verdade não interessa atingir, Freddie Mercury só era Freddie Mercury porque estava lá longe, nos palcos, na fama, provavelmente se ele tivesse Freddie Mercury comendo na sua mesa no café da manhã todo dia, ele não ia ter graça nenhuma.

Não, ele não achava que ele era o Freddie Mercury para as pessoas que conhecia. Mas estava tão distante delas quanto o astro de seus fãs. O homem admirado se sentia muito sozinho e abdicaria de uma congratulação para ouvir alguém dizer que gosta de estar perto dele simplesmente porque gosta. E foi pensando nisso que olhou para o telefone ao seu lado e teve uma ideia.

Se ligasse para um número qualquer, a chance de telefonar para alguém conhecido era baixa. Os números de telefone são tantos. A possibilidade de ser atendido por alguém que não tem a menor ideia do seu nível de inteligência ou dos seus sucessos era muito maior. E ele começou a discar números.

Quando atendiam, ele dizia o seu nome e convidava a pessoa para conversar. De um total de treze ligações, quatro desligaram sem nem falar nada e os outros faziam algumas perguntas desconfiadas sobre sua identidade antes de também desligar. O homem admirado já estava ficando frustrado com o fracasso de seu plano quando a décima quarta ligação acendeu alguma chama de esperança. A voz do outro lado parecia disposta a conversar e respondeu com um “Claro! Como você vai?” ao convite para trocar algumas palavras.

– Vou bem. Como é o seu nome?

– Meu nome? Carlos, você ficou louco?

O homem admirado ficou mudo alguns instantes. Não podia ter ligado para o número de alguém conhecido, ele não sabia de cor o número de ninguém. Só se fosse um acaso fabuloso. Possível, mas improvável.

– Quem é você? – o homem admirado insistiu.

– Carlos, o que você bebeu? Você liga na minha casa, se identifica e aí pergunta meu nome? Pra quem você acha que ligou?

O homem admirado fazia um esforço tremendo para reconhecer a voz, sem sucesso.

– Desculpe, mas nós nos conhecemos?

– Carlos, deixa de ser trouxa. Você ligou para a casa do Max.

O homem admirado estava começando a ficar assustado. Ele conhecia algum Max? Repassou sua lista de contatos mental diversas vezes. Colegas. Parentes. Cônjuges de conhecidos. Max, Max… Não tinha esse nome em nenhum lugar da memória.

– O senhor tem certeza de que está falando com o Carlos certo?

– Cara, eu reconheço sua voz, mesmo no telefone, tá? Você é o Carlos Alves que mora na rua de cima da prefeitura. Baixinho e de óculos preto. Inteligente pra caramba. Trabalha num escritório que fica a duas quadras daí. Putz, você deve ter bebido muito. Não sabia que era disso. E ainda me chamando de senhor.

O homem admirado estava mais do que assustado agora. O tal de Max sabia realmente quem ele era, e ele não tinha chegado nem perto de adivinhar de onde conhecia aquela pessoa.

– Desculpe de novo, mas acho que tem algum engano aqui. Não conheço nenhum Max.

– Carlos, já chega. Você não é de piadas, então deve estar mal mesmo. Estranho, porque ainda hoje de tarde você parecia normal.

– Hoje de tarde??

– No escritório. Você me deu boa tarde e trabalhou na sua mesa como todo dia. Não falou mais nada além de boa tarde, mas esse é que é o seu normal. Tinha até achado legal que queria conversar.

O homem admirado desligou o telefone, apavorado.

Isabela Torezan

Leave a comment