Era um homem nervoso. Nervoso naquele sentido antigo, das histórias de Proust e Flaubert, em que se diz “fulano sofria dos nervos” e a fulano eram recomendadas viagens à praia e dietas alternativas. O problema de ser nervoso fora dos livros antigos (e não ser um personagem rico) é que ninguém vai te mandar para uma temporada na praia se você se queixa de dezenas de pequenas enfermidades psicossomáticas diferentes.
A ele recomendavam diversas outras coisas, além dos óbvios antidepressivos, ansiolíticos e outros remédios modernos, que ele nunca tomou. Questão de princípios. Mas tentou todas as outras coisas que médicos e também não-médicos, compadecidos da sua permanente montanha russa de depressão e ansiedade, sugeriam. Yoga. Exercícios físicos diários. Exercícios físicos diários mais intensos. Menos intensos. Terapia. Dieta paleolítica. Florais. Homeopatia. Aromaterapia. Outro tipo de terapia. Cromoterapia. Adotar um cachorro (Thor, um poodle degenerado, uma gracinha, mas não ajudou muita coisa). Colorir livros de colorir. Trabalho voluntário. Cuidar de plantas. Cortar o açúcar. Aula de dança (um desastre, a tentativa durou uma aula só). Aula de música (o próprio professor sugeriu que talvez não fosse o ideal, num jeito delicado de dizer que ele não tinha talento). Enfim, uma infinidade de coisas.
Mas depois de todas essas tentativas, ele continuava chegando ao fim do dia sem saber porque tinha vivido aquele dia e porque deveria viver o próximo. Não sabia nem definir seu sofrimento, sabia que sofria, que sentia dor, mas não sabia porque, nem onde. As alergias, dores de cabeça, resfriados, gastrites e demais incômodos eram apenas enfermidades acessórias que surgiam daquela outra, maior e indefinida.
Certo dia, chegando em casa, sentia a cabeça explodindo em enxaqueca. Sua insatisfação diária com a vida tinha se canalizado toda para as têmporas. Ele tomou um comprimido (sabidamente inútil) e parou na frente da estante de livros, seu móvel favorito. Não pretendia pegar nada para ler, com aquela dor insuportável estava até vendo as coisas borradas. Mas contemplar uma estante cheia de livros é, como se sabe, uma atividade muito tranquilizante, serviria ao menos para relaxar um pouco.
Até que teve a ideia (na verdade não foi bem uma ideia, ele não chegou a pensar “vou enfiar minha cabeça no meio dos livros”, só fez ). Afastou sua coleção de russos, tirou os dois tomos de Guerra e Paz da prateleira e encaixou a cabeça entre dois volumes. Respirou bastante pó e ácaros acumulados no meio das folhas, limpeza não era bem algo que ele fazia com frequência. Mas sentiu, maravilhado, a dor sumir. A da cabeça. Em dois minutos de imersão a enxaqueca já era uma dorzinha de nada. Ele tirou a cabeça, temendo sentir tudo outra vez, mas concluiu aliviado que os efeitos eram um pouco mais duradouros.
Não teve dúvidas. Livrou quase uma prateleira inteira, deixando alguns volumes apenas no começo e no fim, e se deitou nela como um caixão numa prateleira de jazigo. Seus pés tocavam um livro e sua cabeça outro. E dormiu assim.
No dia seguinte, sentia-se extremamente bem disposto. Dores, inflamações, alergias, ninguém parecia querer se manifestar. Depois de dias dormindo na estante, seu corpo já tinha renunciado a qualquer tentativa de lembrá-lo de sofrer. No fim, estava certo alguém que tinha sugerido que uma mudança de hábito talvez fosse ajudar. Ele não lembrava quem tinha sugerido isso, mas na época tentou coisas como dormir do lado esquerdo em vez do direito e subir escadas em vez de usar elevador.
Agora, ele dorme na estante todos os dias, e já não sofre mais. Esse é o hábito estranho desse homem.
Isabela Torezan
Leave a comment