O melão com presunto (de madrugada)

Toda vez que estou com vontade de escrever e começo a procurar uma ideia, geralmente a primeira coisa que me aparece é um fato bizarro ou fantástico, alguma coisa surreal, e eu acabo escrevendo sobre alguma coisa que provavelmente nunca aconteceria de verdade. Ou se me surge uma ideia antes da vontade de escrever, sem que eu tenha procurado, também é uma estranheza louca, coisas mágicas ou inexplicáveis, pessoas virando árvore ou árvores matando pessoas e por aí vai.

Eu ainda não tinha parado para pensar que tem coisas que vejo e escuto que, se forem escritas, iam ficar tão bizarras quanto aquelas coisas de mortos vivendo que eu andei escrevendo.  Oras, eu sei que isso é crônica. Escrever sobre fatos do cotidiano, e se você for um bom cronista, torná-los inusitados, ou com um novo sentido, ou realçar a beleza deles. Mas às vezes tem um abismo entre a gente saber de uma coisa e saber que sabe, não é?

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Às vezes eu vou na feira de domingo com o meu pai. Quando eu era menor, ia sempre, mas agora vou só de vez em quando. A feira é um lugar legal para um exercício de que eu gosto muito e que consiste em “capturar” os fragmentos de conversa que eu ouço enquanto ando e passo pelas pessoas. É engraçado porque sempre vêm frases fora de contexto e eu posso imaginar mil diálogos diferentes para encaixá-las. Um exemplo: passam duas mulheres conversando e uma delas diz “…e eu disse que isso era um absurdo…”, e aí eu continuo andando e elas também,  e eu posso passar o resto do dia imaginado o que seria absurdo para ela. Lógico que esse foi um exemplo bem sem graça, só queria explicar como funciona.

Bem, hoje eu e meu pai passamos por um casal e eu ouvi isso “…para comer com presunto, de madrugada, é uma delícia.” Até aí, não é nada muito estranho. Eu não uso a madrugada para comer, mas sei que tem muita gente que faz isso, e presunto é um alimento tão comum… Mas e se for presunto com melão?

A mulher apontava uns melões daqueles alaranjados, que lembram uma abóbora, e parecia contestar o marido (noivo, namorado, tanto faz) que acusava aquele tipo de melão de ser sem graça, aguado. Ela defendia a compra mencionando essa inusitada combinação: fatias de melão com fatias de presunto, de madrugada. Não sei por que fazia diferença para ela se comeria aquilo de dia ou de madrugada, mas se não fizesse, ela não teria incluído isso na frase.

Fiquei imaginando aquela mulher levantando da cama às três da manhã, ou saindo do sofá depois de terminar uma temporada de uma série qualquer (não entendo de séries o suficiente para conjecturar qual série ela assistia), e indo até a cozinha, descalça ou arrastando os chinelos, e abrindo a geladeira. Aí ela olha, olha, pensando no que tirar dali, e vê um injustiçado melão aguado do qual só foram extraídas duas fatias. Ao lado dele repousa inocente um prato com três fatias de presunto do dia anterior. Ela então procura uma faca no armário, mas não acha nenhuma, porque estão todas sujas na pia. Nesse momento ela lamenta não ter lavado a louça mais cedo e maldiz o marido por não ter lembrado também. O remédio é lavar rapidinho uma das facas, com a qual ela tira uma generosa fatia do melão e o embrulha cuidadosamente nas fatias de presunto.  Esse é o seu método: embrulhar o melão no presunto, de forma que o sabor fique bem distribuído em todas as mordidas.

Claro que pode não ser assim que acontece. Pode ser até que aquela mulher não come melão com presunto coisa nenhuma e falou aquilo para brincar com o marido só. E o negócio da louça também, foi só a primeira coisa que me veio na cabeça. Ela talvez seja uma obsessiva por limpeza, eu nunca vou saber. Mas isso serve para uma reflexão importante, embora eu não goste muito da ideia de ficar apontando reflexões. Melhor dizer que foi o que eu fiquei pensando depois que já tinha criado toda a cena da comedora noturna de melão com presunto.

Essa “refeição” pode parecer estranhíssima para mim, para o meu pai e para mais muita gente, mas pode ser completamente normal para alguém. Para aquela mulher, por exemplo, se ela realmente faz isso. E se eu estou aqui escrevendo sobre o lanchinho da coitada com a mesma vontade com que escrevo sobre pessoas de um olho só no meio da testa e alguém lê e não vê absolutamente nada de estranho no texto? E se toda vez que usei aqui palavras como “inusitado” ou “estranho” eu estava sendo egoísta  ao usar a minha aversão a melão com presunto para narrar um fato supostamente bizarro?

Na verdade, essa é a verdadeira bizarrice das coisas do cotidiano: elas nunca são uma só. Ninguém nunca viu um morto falar, então se eu escrevo isso, inevitavelmente vai ser uma história estranha. Fácil. Agora, contar algo que eu vi ou ouvi como se fosse algo estranho é estar no risco permanente de não estar dizendo nada de interessante. Uma coisa pode ser estranha para mim, normal para outra pessoa, algo que uma terceira faz de vez em quando, que uma quarta acha estranho, mas faz mesmo assim. Pode ser muitas coisas. Em uma possibilidade extrema, um único acontecimento pode significar tantas coisas diferentes quantas forem as pessoas que o verem ou ouvirem falar dele. Eu acho isso tão bizarro quanto comer melão com presunto de madrugada.

Mas pode ser que você não ache, estou assumindo o risco.

Isabela Torezan

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