Estou esperando alguma coisa louca acontecer. A vida não pode ser só isso, não tem como. Fiz cinquenta anos esses dias. São cinquenta anos assistindo o dia acabar e começar a noite, depois começar o dia de novo, e a noite de novo, nesse ciclo interminável. Cinquenta anos de vida comum: crescer, estudar, estudar mais, encontrar emprego, trabalhar, trabalhar, trabalhar eternamente. Ei, não estou reclamando da vida comum, nem de trabalhar. Já reclamam demais disso. E todo mundo se esforça para fazer alguma coisa diferente de vez em quando, quebrar a rotina etc. Eu também, na verdade. Principalmente nessa época de ano novo, quantos não prometem ser ou fazer diferente nesses novos 365 dias que derrubam em cima da gente depois que 23h59 vira 00h00 no dia 31 (rima ruim de “gente” com “diferente”, sei que tem uns aí que notaram, desculpem, mas vai ficar). Também não estou reclamando de problemas pontuais da vida, como ser sozinho, já cansei de falar disso. Não, não. Como disse, estou esperando alguma coisa louca. Estou reclamando da falta de imaginação no enredo dessa história aqui. Tudo bem ter uma vida comum, rotineira, porque ela é sempre quebrada por uma ou outra coisa mais diferentinha. Mas por que, por mais diferentes que sejam as coisas que acontecem, elas sempre parecem possíveis? Pelo menos na minha vida, é sempre tudo tão previsível. Que coisa, quero quebrar essa monotonia, quero algo realmente surpreendente. E estou num estado de tensão nervosa, por que acho que hoje acontece. Não sei o que vai acontecer, mas sei que vai ser hoje e vai ser daqui a pouco. Talvez eu vá ali na cozinha fazer um chá e quando abrir o armário encontre um gnomo morando nele. Talvez o telefone toque e seja alguém da NASA me dizendo que fui contemplado com uma viagem só de ida para Marte. Talvez eu volte para o quarto e encontre minha cama se arrumando sozinha. Ou melhor, o quarto todo se arrumando sozinho, não seria nada mal. Podia até ser alguma coisa ruim, mas que fosse louca. Sei lá, cair um meteoro roxo recheado de chocolate em cima de casa e destruir tudo e me afogar em chocolate. Em síntese: quero que aconteça algo pelo que eu não esperava. Qualquer coisa, ou vou morrer de tédio. Sim, eu sei que sou dramático. É de família, mamãe era quase histérica. Esperem! Para tudo. A campainha tocou. Será que? Só pode ser. Estou sentindo que é agora. Vou correndo abrir a porta. Calma. Sem precipitação. Preciso aproveitar o momento. Se é agora que acontece a coisa louca, preciso estar preparado para fazer o melhor uso possível dessa reviravolta no roteiro. A campainha tocou de novo. Estou indo! Abro a porta da sala segurando a maçaneta com muita força porque estou me contendo para não abrir rápido. Escancaro a porta e… dou de cara com a vizinha. Uma senhora. Uns setenta anos, por aí. Segurando um prato com um bolo marrom. E sorrindo. “Feliz ano novo! Trouxe pra você um bolinho aqui que eu fiz”. Um bolo: acabo de ganhar um bolo da vizinha. Nunca ninguém me fez um bolo antes, nem minha mãe, nem minha avó, ninguém. Por essa eu realmente não esperava. Não consigo parar de olhar o bolo. Pensando bem, acho que se eu for na cozinha agora e achar aquele gnomo, nem vou achar tão louco assim.
Isabela Torezan
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