Desde pequeno minha mãe falava que eu era perfeccionista. E muito exigente comigo mesmo. Chorava se a professora não elogiava meu dever, mais tarde não conseguia aceitar notas menores que dez, essas coisas. Acabou que levei isso para a vida adulta. Claro que só receber elogios pelo seu trabalho é muito mais difícil do que só tirar dez na escola. É por isso que eu sofro tanto. Ninguém entende o quanto é doloroso ler aqueles críticos malditos falando que o filme “peca pelo roteiro”, “perde pontos no roteiro”, “tem roteiro fraco”, etc. Eu só faço roteiros perfeitos. Ninguém deveria criticar nenhum deles. Minha mãe já sugeriu que eu pare de ler as críticas, mas é mais forte do que eu. Eu tenho sempre tanta certeza de que escrevi um roteiro maravilhoso que realmente preciso ver isso escrito por outra pessoa. E claro, a maioria fala bem mesmo. Ou pelo menos não menciona minha obra como um defeito do filme. Mas sempre aparece um desgraçado depreciando meu trabalho, um insensível que não pensa que momentos depois que seu textinho medíocre for publicado eu estarei angustiado no sofá, bebendo litros de chá para tentar combater a decepção.
Foi depois de uma crise dessas que criei meu método de “consolo” que me permite continuar trabalhando sem enlouquecer com a possibilidade de ser mal avaliado. Nesse ambiente do cinema contemporâneo, em que todo mundo virou crítico de cinema, não é só o pessoal dos jornais e revistas que eu devo temer. Podem destruir meu trabalho em poucas linhas num comentário de Facebook. “Todo mundo está sujeito a isso, hoje em dia”, dizem. “Pensa nos atores, nos diretores, pra não sair do mundo do cinema. Eles são bem mais atacados do que você”. Isso disse o Sr. Almeida, meu vizinho e confidente, que é aposentado de crítico de cinema (não me relaciono com críticos na ativa). O que não entendem, o que o Sr. Almeida não entende, é que eu sofro muito, muito mais com as críticas, porque tenho certeza de que meu trabalho é perfeito, não tem o que melhorar, não existe isso de crítica construtiva, se me criticam estão me ferindo, nunca me ajudando.
Mas enfim, eu ia falar do meu método. É bem simples na verdade. Passei a roteirizar meus sonhos. Ninguém tem acesso a eles, certo? Logo a chance de receber uma avaliação negativa sobre um sonho baseado em um roteiro meu é zero. Toda noite, antes de dormir, escrevo o roteiro do sonho da vez. Fiz uma pesquisa sobre sonhos para construir enredos mais verossímeis, com elementos típicos de sonhos, os restos diurnos, essas coisas todas. Garanto que são perfeitos. O tempo de duração também, aprendi a ajustar direitinho. E o melhor é que sou eu mesmo que executo, não corro o risco de um diretor ou produtor babaca aparecer com ideias de alterações e subversões do meu roteiro maravilhoso. E tudo sempre corre bem, é certo que ninguém vai falar mal, porque ninguém viu, eu compenso alguma possível decepção do dia. Além disso, ainda tem a vantagem de que, sonhando a partir dos meus roteiros, só tenho sonhos bons. Obras de arte. Nada de coisas trash tipo filme de terror B. Eliminei os pesadelos.
Aliás, tinha eliminado. Noite passada tive um pesadelo, e é para contar isso que comecei a escrever esse texto, na verdade. Fui numa festa de Natal (que grande arrependimento) e acabei voltando muito tarde. Tinha bebido um pouco além da minha cota também (o que não é difícil, minha cota são dois copos de qualquer coisa com álcool, não importa o teor porque é uma cota psicológica). Aí cheguei em casa e simplesmente não consegui pegar o notebook para pensar no roteiro. Lamentei não ter tido ideia de deixar uns roteiros de gaveta prontos para situações como essa. Eu saio tão pouco, não achei que um dia fosse precisar.
O fato é que caí na cama, me livrei das roupas através de contorcionismos e dormi imediatamente. E acabei sonhando, sem roteiro, como acontecia antes de eu ter a ideia de roteirizar meu sono. Só que juro que nunca tive antes um pesadelo tão ruim quanto esse.
No sonho, aparecia uma moça de cabelo ruivo, que não se parecia com ninguém que eu conheço e conversava comigo uns minutos. Meio sem explicação, na próxima cena ela estava dormindo do meu lado na cama e a cor do cabelo tinha mudado para preto (uma péssima quebra de sequência inútil, isso jamais aconteceria num roteiro meu). Eu olhei a moça dormindo, aparentemente sem estranhar que ela estivesse ali, virei para o outro lado e dormi. A próxima cena é ela me acordando, indignada, e dizendo: como você tem coragem de sonhar uma coisa dessas? Nunca vi um sonho tão ruim, mal construído, mal acabado, pouco original, cheio de clichês, com cenas desnecessárias. Seu roteiro é péssimo.”
Acordei na hora (de verdade, não no sonho) arfante de nervoso, no mesmo estado de quando leio uma crítica daquelas. Pior, aliás, porque estava assustado também. Jurei que nunca, nunca mais vou deixar de fazer o roteiro antes de dormir. Dispenso ter outro sonho desses. Por via das dúvidas, também acho melhor não trazer garotas para dormir aqui. Vai que aparece uma que assiste meus sonhos.
Isabela Torezan
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