Satisfeito

Eu não faço a menor ideia de onde vêm essas lasanhas. Mas sou grato a quem faz elas aparecerem no meu congelador, se é que tem alguém responsável por isso. Desde que achei a primeira, minha vida está bem mais divertida.

Eu sempre detestei ler. Até HQs eram demais para mim. Letras em excesso, sabe. Me cansava. Na minha casa não tinha um livro sequer, vendi até os de receita que minha mãe me deu quando vim morar sozinho. Nunca tive nada contra o objeto livro, veja bem, achava até alguns bonitos, decorativos, mas ler mesmo nunca era uma atividade atraente.

Isso foi antes das lasanhas. Depois delas, puxa, tudo mudou. Não gosto de soar dramático assim, mas é verdade. Eu devoro livros agora (quase literalmente).

A primeira apareceu num domingo de manhã. Abri o congelador em busca de um pacote de pães de queijo congelados. Adoro comida congelada, tenho de tudo congelado, até batata frita. Mas eu tinha certeza de que não era para ter uma lasanha lá naquele dia, porque domingo é dia de compras e normalmente o congelador está vazio. Tudo o que eu esperava encontrar por lá era o pão de queijo.

Mas não. Lá estava ele, um belo pacote de lasanha congelada, da minha marca favorita, coberto de pedacinhos de gelo. Antes de suspeitar, fiquei feliz. Meu almoço ia ser um resto de pizza do dia anterior, a oportunidade de almoçar lasanha era deliciosa. Não sou uma pessoa muito desconfiada nem preocupada demais, então durou pouco meu incômodo por não saber de onde vinha aquela maravilha (já que não tinha sido eu quem tinha comprado). Aceitei que meu congelador quis melhorar meu domingo e tomei meu café da manhã em paz.

Perto da hora do almoço, coloquei a lasanha no forno, ajustei o timer e fui para a sala ligar a TV. Não assisto TV no horário do almoço, só ligo para ficar ouvindo o barulho. Se me perguntarem, nem sei que programas passam. Sentei na sacada para observar o (não) movimento da minha rua no domingo enquanto esperava a comida. Eu poderia, sei lá, ir arrumar meu quarto, mas sou da opinião de que domingo é meio um dia de fazer nada.

Quando ouvi o “tlim!” que indicava que minha lasanha estava pronta, fui para a cozinha, peguei uma luva e abri o forno, sentindo meu estômago ansioso. Já pensava nos fios de queijo derretido. Imaginem a minha decepção em olhar lá dentro e encontrar um livro. Sim, um livro. De verdade. Com capa, páginas e tudo. Enfiei a mão com luva no forno quentíssimo e tirei o que era para ser a minha deliciosa lasanha de lá dentro. Era Moby Dick, fervendo.

Coloquei ele em cima da pia e fiquei um bom tempo parado, olhando. Eu estava tão triste. Toda a minha alegria em almoçar lasanha no domingo tinha sido destruída por aquela pilha inútil de papel. Tive vontade de jogar no lixo, sem dó, mas já tinha tirado a luva e esqueci que estava quente ainda. Queimei minha mão e precisei correr no banheiro achar uma pomada para queimaduras.

Depois minha fome falou mais alto do que a raiva que eu estava daquela lasanha falsa e esquentei a pizza, aquela que era meu plano original de almoço. Saciado, resolvi dar uma olhada melhor naquele estranho objeto. Quando tirei a lasanha do pacote, ela era uma lasanha, eu tinha certeza, como podia ter se transformado em uma coisa feita de papel? Já não estava tão quente e eu consegui segurar e abrir nas primeiras páginas. E aí fiz uma coisa muito estranha para mim, mas que ainda bem que fiz. Eu li as primeiras linhas. E foi mágico.

Senti gosto de lasanha. Gosto de queijo, presunto, molho. Li mais algumas linhas. O gosto continuava ali. Quando acabei a primeira página comecei a sentir que meu estômago estava com um pouco de dificuldade em acomodar algo além da pizza. Aguentei ler três páginas e já estava completamente cheio, sem querer pensar em comida por boas horas. Mas estava achando aquilo fantástico. Eu não lia, mas sabia que não acontecia isso de sentir gosto de comida quando a gente lê. Tenho amigos que leem, eles comentariam sobre o gosto dos livros se isso fosse normal. Mas eles sempre falavam só da história, dos personagens, às vezes do autor.

Terminei de “comer” Moby Dick aos poucos, durou um tempo, leitores inexperientes leem mais devagar. Mas eu adoro lasanha, então até que demorei menos do que o esperado.

Um mês depois, apareceu outra lasanha inexplicável no congelador. Fiquei muito curioso para saber se era como a outra e coloquei no forno na hora em que encontrei, nem era hora de almoço ou jantar. O resultado? O sol é para todos. Gosto de lasanha com a mesma qualidade do Moby Dick. Que, aliás, eu não tinha vendido, mesmo depois de já ter terminado.

Na quarta lasanha dessas eu já estava gostando de ler. Uma vez a cada dois meses, às vezes uma vez por mês, surge uma lasanha dessas no meu congelador. Eu asso e leio feliz, gosto tanto de lasanha que não enjoo.

Alguns amigos se espantaram de me ver comentando um livro que tinha lido e pensaram que era a minha “salvação literária”. Apareceram com um monte de livros novos de presente para mim. O que foi inútil, porque tentei ler vários deles e nenhum tinha gosto de nada. Vendi todos.

Só leio meus livros-lasanha. Agora já faz quase um ano que eles começaram a aparecer no congelador e espero que continuem aparecendo, são gostosos e nunca paguei por eles. Aliás, depois desse tempo todo continuo sem ideia de como eles surgem ali. Se for alguém que faz uma mágica ou algo do gênero, será que não tinha como fazer uns de brownie congelado? É minha sobremesa favorita.

Isabela Torezan

Leave a comment