Sobre a morte, partindo de uma pombinha

Para a minha avó Noêmia, que teria lamentado a morte da pombinha

Hoje eu estava andando e encontrei uma pombinha morta no chão. Deitada de costas, o peito de penas lisas e brancas virado para cima, pés retesados. As asas, meio dobradas, formavam quase um coração. Isso do coração não notei na hora, mas depois, na foto que tirei dela. Hesitei alguns segundos para tirar essa foto. É certo fotografar animais mortos? Para fotografar gente morta há todo um código de ética. E é normal fotografar animais mortos? É visualmente válido para uma fotografia?

Como podem ver, nenhum dos meus questionamentos era forte o suficiente para que eu pensasse neles por mais do que alguns segundos mesmo. Não tinha ninguém em volta, então mesmo que fosse proibido fotografar animais mortos (acredito que não seja), eu não estaria correndo nenhum risco, se guardasse a foto comigo. Teria que lidar com a culpa de ter feito algo antiético, mas já lido com culpa o tempo todo mesmo, já me acostumei. E sobre ser normal e válido, acho que pensei nisso por microssegundos. Quantas coisas anormais e inválidas faço todo dia?

De forma que a foto saiu, e agora tenho a pombinha morta eternizada aqui. Posso olhar para ela de novo quando eu quiser, quantas vezes quiser. Mas nada supera, é claro, o choque da primeira visão, o choque com a morte. Era só uma pombinha, dirão alguns. Bom, quando eu vi pela primeira vez, ao vivo, no chão, não era só uma pombinha. Era antes algo morto, e esse algo morto era uma pombinha. O fato de estar morta era maior do que o de ser uma pombinha. Ser pombinha importava e fazia sentido quando ela podia realmente ser pombinha, voar, comer etc. Agora que não podia, era igual a qualquer outra coisa morta, era inerte. Era morte antes de qualquer outra coisa.

Lembrei, momentos depois, de quando morreu minha avó. Eu tinha treze anos e na primeira vez que chorei a morte dela eu tinha dezessete. Passei meses, depois desse primeiro pranto, me culpando  e me acusando de insensível (eu não amava minha avó? A partida dela simplesmente deveria ter me chocado). Foi só quando chorei ao pensar que ela não existia mais, quatro anos depois, que me dei conta, incomodada, de que não tinha chorado no momento “certo”. Mas acho que agora compreendo porque isso aconteceu. Vendo a pombinha morta, e percebendo que era na verdade uma morta pombinha, consegui diferenciar aquilo de uma pombinha viva e sentir o peso da morte ali, anulando qualquer definição anterior do ser em questão. Quando fui informada da morte de minha avó, não fiz essa diferenciação. Não surgiu, para mim, a ideia de um novo estágio, em que ela deixava der ser minha avó para simplesmente não ser mais. Por anos, a ideia-avó ainda era a primeira que me vinha à cabeça quando via fotos ou ouvia falar dela. Chorei quando pela primeira vez a ideia-morte veio antes.

Eu não fui ao velório nem ao enterro. Acredito que isso talvez tenha contribuído para os meus anos de ilusão com uma ideia-avó que não existia mais: a última vez em que a vi ela correspondia perfeitamente a essa ideia-avó.

Criei essa coisa da ideia-morte porque me pareceu que era a melhor maneira de explicar a minha demora em reagir à partida de minha avó, mas acho que muita gente chamaria isso simplesmente de “cair a ficha”. Demorou quatro anos para “cair a minha ficha” de que a minha avó não existia mais (uma desvantagen do ateísmo: não conseguir acreditar, de jeito nenhum, que as pessoas podem estar em outro lugar depois de morrer. Sabemos que elas deixam abruptamente de existir e temos que lidar com a dureza disso).

Sou bastante lenta em algumas coisas. Descobri mais uma. Mas acho que, independentemente do quão rápido as pessoas constroem essa ideia-morte, é importante reconhecer que conseguiram isso. Falar sobre morte ainda é tabu (odeio essa palavra tão clichê, mas não tem substituto possível. Odeio a palavra clichê também). É muito difícil assumir que você trocou a ordem das palavras, “avó morta” para “morta avó”, que é o que acontece quando “cai a ficha”. Assumir que o valor que você atribuía a essa pessoa não pode mais ser o mesmo, porque ela não existe mais para receber isso, é doloroso, e é por isso que choramos a morte de alguém. Mas é importante que isso aconteça, ou vivemos para sempre no estado em que fiquei nesses quatro anos, em que não sabia realmente que minha avó tinha morrido.

Ninguém demora tanto tempo, eu acho. Para “cair a ficha”. Por isso me martirizei tanto, acreditando que não tinha amado minha avó de verdade, quando percebi que tinha passado quatro anos sem sofrer pela perda dela. Mas graças à pombinha morta, ou melhor, à morta pombinha de hoje, entendi que foi só uma demora em conseguir inverter as palavras, essas coisinhas que carregam sempre tanto sentido. Eu sei que amei minha avó.

Isabela Torezan

Leave a comment