– Carla, depois procura o telefone da funerária pra mim na internet. Anota num papel que eu vou ligar hoje de tarde ainda.
João Alberto engasgou com um pedaço de carne. No meio do almoço, o silêncio já natural, a mulher derruba uma bizarrice dessas por cima da refeição.
– Funerária, Dora? Que funerária? Pra que você quer ligar em funerária?
-Caramba, pai. – a filha respondeu no lugar da mãe, que tinha o nariz enfiado no copo de suco – é você mesmo que vive dizendo que é bom planejar as coisas.
– É, Beto. Quero deixar tudo acertado.
– Mas acertado pra que? Vocês ficaram malucas?
Mãe e filha se entreolharam com certo tédio. O novo silêncio que se estabeleceu colocou a refeição de volta à normalidade. No aspecto, ao menos. O pedaço de carne com que João Alberto tinha engasgado descia lentamente pelo seu esôfago, ou pelo que ele julgou que fosse o esôfago, e levava junto a sua pergunta não respondida. Ele sabia, era melhor não insistir. Se João Alberto sabia de uma coisa, além de que planejar é bom, essa coisa era que não é bom irritar Dora.
…………
– Medidas? Ih, não sei. Faz assim, ligo de volta daqui uns minutinhos. Mas não é muito alto não, acho que vocês devem ter bastante opção aí. – Dora desliga o telefone
– Caaaarlaaaa pega a minha fita métrica na gaveta do armário velho. – ela grita na direção do banheiro.
A filha sai do banheiro com a toalha enrolada na cabeça.
– Pai, encosta na parede aí e faz uma marquinha em cima da sua cabeça. Já trago, mãe.
………….
João Alberto se viu de repente fazendo um testamento porque diabos estou fazendo um testamento ele pensou e Dora me assombrando com essas ligações pra funerária eu queria perguntar o que está acontecendo nessa casa elas tão planejando alguma coisa mas planejar é bom. Ele não se sentia bem. Se sentia gasto.
………….
Dora planejou tudo. Escolheu o caixão, as flores,a roupa, os sapatos. Falou com o padre. Encomendou salgadinhos. Comprou bastante coca-cola (“mantém o pessoal acordado e a gente não precisa fazer café”, tinha dito a pragmática Carla). Passando por cima do peso dos seus setenta e oito anos, Dora trabalhou diligentemente. Recusou quase toda a ajuda da filha quarentona solteira e desocupada, que tentou a todo custo assumir funções e fazer a mãe descansar um pouco. Em três dias, tudo já estava muito bem planejado.
………..
João Alberto morreu dormindo na noite do dia 12 de fevereiro, o testamento pronto em um envelope na escrivaninha. Seu coração decidiu se sentir gasto também e o seu corpo cansado aceitou feliz o início da transformação em pó. Se bem que João Alberto não tinha certeza de ter vindo do pó, então não sabia se agora retornava a ele. Mas foi uma morte tranquila, afinal, já estava tudo muito bem planejado.
Isabela Torezan
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