Ella renasce

Esgotada, Ella só pensava em se cobrir com o lençol e dormir. Aquela sensação de cansaço injustificável pelo nível de esforço que sua faculdade exigia se manifestava todas as noites nos últimos meses. E Ella sabia que não estava cansada fisicamente, que seu cansaço vinha de outro lugar que não do corpo. Olhando a almofada manchada de restos de maquiagem, pensou que chorar era uma das coisas da qual estava cansada. Todas as noites involuntariamente se lembrava de pensar nos infortúnios da vida e esperar as lágrimas descerem quentes, aliviando a dor, umedecendo o rosto. Tinha ficado viciada em chorar. Mas como acontece com todo vício, uma hora cansou-se dele. Agora não sabia o que fazer para parar com aquilo. Sabia ainda que boa parte de seus motivos para fazer isso tinham desaparecido, porque no começo chorava por alguém que agora ela via que não merecia nem uma gota de todo aquele mar que ela havia derramado. Mas Ella tinha tentado, e até com algum sucesso, encontrar outros motivos  que a permitissem continuar chorando todas as noites, em seu ritual depressivo catártico. Também estava cansada de carregar essa depressão para todo lugar que ia. Se depressão fosse um objeto, seria uma bigorna de ferro enorme. Ella carregava essa bigorna todo dia para a aula e se sentia satisfeita por saber que era impossível não notar que ela carregava um peso tão grande. Antes de estar cansada de carregar depressão, Ella já era cansada de se sentir necessitada de atenção. E assim foi acumulando cansaços. Até chegar ao ponto daquele esgotamento que sentia, parada olhando a cama arrumada com cuidado, o lençol e a almofada manchada, seu pequeno santuário solitário de auto desabafos. Ella queria dizer chega, queria acabar com isso de uma vez por todas, queria parar de se orgulhar de seu estado doentio (ela agora sabia que se orgulhava e tinha passado a se reprimir por isso), queria parar de se esforçar por ser associada a uma visão negativa da vida. Ella queria poder sorrir sem achar que isso era descabido, queria se permitir ser feliz só por ajudar os outros e parar de esconder de si mesma o fato de que isso era o que ela fazia melhor. Queria poder se sentir agradecida por ter gente que gostava dela. Ella deitou-se pensando em como seria difícil passar de um polo de atitude para outro tão diametralmente oposto. “Talvez se eu nascesse de novo”, pensou. Puxou o lençol até o nariz e dormiu embalada pela sua exaustão rabugenta.

…………….

Ella sentiu primeiro o cheiro. O aroma ferruginoso de sangue, o odor do fluído feminino e viscoso que manchou sua calcinha pela primeira vez aos doze anos de idade, mas que também era o cheiro que ficava no travesseiro quando seu nariz sangrava em noites secas e abafadas. O segundo sentido a se manifestar foi o tato, e sentiu, ainda não enojada, o líquido quente e, mais tarde saberia, rubro, em que estava deitada. Ainda estava na cama? Sim, estava. Reconhecia a maciez velha do colchão de tantos anos. Juntos, tato e olfato a obrigaram a abrir os olhos e terminar de uma vez por todas com o resgate de Ella de seu sono sem sonhos.

Estava no meio de uma poça de sangue. Alguns fragmentos branco-amarelados se misturavam ao líquido. Deitada em posição fetal, os braços encolhidos no peito, os cabelos colados na cabeça. Assustada, sentou-se rápido e passou as mãos pelo corpo, nu pela ausência inexplicável de sua camisola, à procura de qualquer ferida. Nenhuma. Sua pele estava mais lisa e macia do que nunca, apesar de suja e úmida e cheirando a ferro. Na pequena exploração do próprio corpo que fez, em busca da origem daquele sangue todo, encontrou suas unhas, rosadas e curtas como jamais estiveram. Sentia vontade de chorar, mas não sabia por quê. Estava assustada, mas não a ponto de ter um colapso nervoso. Sentia apenas uma emoção inexplicável, uma sensação ainda sem nome que ela em algum lugar da memória estava associando à infância. Resolveu se levantar da cama e ir até o espelho.

Olhando a própria imagem, um pouco assustadora porque parecia que ela tinha saído de uma carnificina, Ella viu que estava sorrindo. E soube que sorria porque a sensação sem nome que sentia era felicidade. E que naquele dia deixaria a bigorna em casa, e talvez quando voltasse ela não estivesse mais lá. Soube, por fim, que seus desejos da noite anterior tinham sido atendidos, e de uma forma mágica, porque ninguém faz essa transição com facilidade. Soube o que significava todo aquele sangue. Ella soube que tinha nascido de novo.

Isabela Torezan

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