É muito importante, para mim, ter momentos de total solidão, sem ninguém por perto. Sim, eu sei que para muita gente é. Nem precisa ser uma pessoa solitária, nem amarga, triste, nada assim, quase todo mundo precisa de uns momentinhos só “eu e eu mesmo”. Mas para a maioria das pessoas, isso é uma questão de gosto, conforto, como quiser chamar. Muitos se sentem livres sozinhos, outros gostam do silêncio. Não é o meu caso. Nem gosto de ficar sozinho. Eu preciso, e é justamente por isso que nem gosto. Quando estou com outras pessoas, Edgar, meu alter ego, fica preso e impaciente, e ele sabe ser bastante incômodo se achar que demorou demais. Não sei se já nasci com ele, porque minhas memórias da primeira infância são, como as de todo mundo, bem escassas, mas tenho registros de sua presença já por volta dos seis, sete anos. Me lembro de ter liberado ele no quarto um dia que minha mãe saiu para ir no mercado e acabei dormindo. Eu estava doente, caso contrário jamais teria dormido com o Edgar solto, ele torna o ambiente tão turbulento que fica impossível dormir. Minha mãe voltou do mercado e foi direto ao meu quarto ver como eu estava, munida do termômetro e uma caixa de remédios, e deu com o Edgar em pé na cama. Ela deu um grito, derrubou o termômetro, que se quebrou em vários caquinhos e esparramou mercúrio, e saiu correndo. Não foi muito materna essa atitude, é verdade. Lembro que fiquei indignado que ela tinha se assustado e correra para se salvar em vez de ME salvar. Mas minha mãe nunca foi muito maternal mesmo, nem muito corajosa. Sei que o Edgar também se assustou, com o grito, e voltou para dentro correndo. O bom foi que naquele dia ele ficou o resto do tempo quietinho e me deixou descansar. Acabei explicando sobre o Edgar para a minha mãe depois, e até hoje ela era a única que sabia sobre ele. Nunca fui íntimo o suficiente de ninguém para falar de algo tão interior (literalmente). Não sei muito bem, aliás, qual a função do Edgar na minha vida. Quer dizer, até sei. Quase tudo o que ele faz quando está livre é me atazanar, me contestar e discordar de qualquer coisa que eu tenha feito ou falado pouco antes de eu liberá-lo. Mas muitas vezes acabo tomando decisões com base em coisas que ele disse. Talvez o fato de que tenho só vinte anos e o Edgar tem uns quarenta e cinco, quarenta e seis desde que tenho memória dele explique isso. Ele é bem mais experiente, é mais velho. E é muito, muito pior que qualquer pai ou mãe. Eu tento dar umas escapadas da vigilância, como no dia em que tomei um porre, vomitei horrores e acordei meio dia no meu quarto sem conseguir lembrar como tinha chegado ali. Esse dia foi um inferno, e nem foi por causa da ressaca. Preferia ter passado uma semana com aquela dor de cabeça a ter ouvido seis horas de sermão do Edgar, me acusando de inconsequente, fútil, desmerecedor da minha inteligência e outras delicadezas Edgarianas. Não nego que muita gente me considera um garoto sensato justamente por causa dos palpites do Edgar, mas a companhia dele não é algo que desejo para ninguém. Ele é chato e barulhento, ainda por cima. Fala alto e tudo mais. E fica pior quando fica preso por muito tempo. (Só estou escrevendo essas coisas porque sei que ele não vai ler, ele não dá muita bola para o meu talento literário). Então, colegas de sala, quando notarem que fiquei sozinho na sala no intervalo, supostamente lendo, não se sintam compelidos a fazer companhia para o pobre colega solitário. Eu preciso desses momentos para liberar o Edgar, e garanto que vocês estão ótimos longe dele. O Edgar é o juízo que ninguém tem aos vinte anos, e nem quer ter.
Isabela Torezan
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