Às vezes saio para ir ao cinema sozinha. É um bom exercício de observação, porque quando estamos acompanhados tendemos a prestar atenção em quem está conosco; andando sozinha dá para reparar bem melhor nos outros seres humanos que dividem o espaço público com você.
Esses dias, estava no shopping para esse exercício e tive um daqueles momentos que aprendemos a chamar de epifania quando estudamos Clarice Lispector no ensino médio. Mas que podia ser descrito só como “tive um ideia” ou “ senti algo”, na minha opinião. Eu chamei de visão. O que aconteceu foi: eu olhava o pessoal indo e vindo, mães arrastando crianças pela mão, casais andando juntos, grupinhos de pré-adolescentes exercendo sua falsa liberdade de garotos de prédio e jovens apressados para assumirem seus postos nas lojas (eram quase duas da tarde). Olhava todos com igual curiosidade. Alguns passavam perto o suficiente para que eu pudesse ouvir trechos de suas conversas, e aí era ainda mais interessante. De repente, sem nenhum aviso, a paisagem mudou.
Enxerguei, por alguns minutos, o shopping todo alagado, com ondas marítimas batendo nas paredes e invadindo o Burger King. Em vez de pessoas andando (nadando?), agora eu via inúmeros pontos brancos espalhados, dezenas de pontas de icebergs. Uma ou outra onda mais forte mostrava que abaixo das pontinhas tinha muito mais coisa, mas a água se movia muito rápido e eu nunca conseguia ver direito como era.
Não me mexi enquanto durou a visão. Eu assustei, é claro. Não costumo ter visões completas assim, enxergo uns vultos de vez em quando, que eu sempre acho que é minha vó, mas nada tão graficamente bem construído como aquele mar de icebergs no shopping.
Quando acabou, a imagem azul e branca ainda estava na minha retina. Olhei um senhor sentado tomando café. Quem seria ele? Pelas roupas, alguém com dinheiro. Pela aliança, casado. E a mulher na loja de roupas? Pelo pingente no pescoço, uma mãe de duas meninas. Pelo rosto cansado, alguém que trabalha bastante. Mas só. Eu nunca poderia saber mais sobre essas pessoas do que pequenas informações oriundas de deduções somente prováveis. E todo mundo carrega muito mais do que isso como história pessoal. A maior parte das pessoas são, para nós, somente pontas de icebergs.
Isabela Torezan
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