Leda é mãe

Resenha de A filha perdida

Um pouco de mistério é uma tática de promoção infalível. Deixe espectadores ansiosos pela continuação de um filme, e as bilheterias sairão beneficiadas. Anuncie uma “surpresa” em um evento e tenha certeza de um aumento de público. Isso é natural, somos atraídos pelo desconhecido, pelo misterioso, não é à toa que romances policiais sempre foram sucesso de venda. Usar mistério no enredo é, acredito, a fórmula mais usada na literatura para atrair leitores, e, portanto, vender (absolutamente nada contra).

Elena Ferrante pode não estar competindo com Stephen King ou outro gigante do mercado editorial, mas o mistério também foi importante para tornar seu nome conhecido. Não foi, porém, no enredo. Ferrante não escreve suspense, horror nem policial. O mistério é ela mesma: ninguém sabe ao certo quem está por trás desse pseudônimo. Há especulações, nunca confirmadas, e entrevistas concedidas apenas por e-mail criaram na imprensa uma aura de segredo em torno do nome.

Uma combinação propícia de popularidade com os leitores comuns, atraídos pelo mistério, e com os críticos literários colocou Elena Ferrante nos estandes de exposição das livrarias. Como leitora comum atraída pelo mistério e considerando a opinião da crítica, também eu decidi adquirir um exemplar de alguma obra da autora italiana de identidade incerta. Não me importava muito qual, então acabou sendo um que encontrei na promoção: A Filha Perdida.

A expectativa era, por assim dizer, bastante alta. Alguém que consegue agradar críticos e ainda ser pauta dos jornais fora da seção de resenhas deveria ter algum talento especial para a escrita. E tem. O segredo do texto de Ferrante, ao menos julgando pela amostra de A Filha Perdida, é a concisão e a ausência de descrições exageradas (o que evita o cansaço na leitura, importante com leitores pouco assíduos) combinado com uma perspicácia aguda para os sentimentos humanos.

No aspecto técnico, Elena Ferrante não decepciona. Mas, como em toda obra literária, isso não é suficiente. Se a história não cativa o leitor, não há malabarismo estilístico que salve um romance. Há livros que conseguem agradar uma gama muito grande de leitores porque trazem muitas possibilidades de identificação com variados personagens, ou um personagem central absurdamente carismático. Não é o caso de A Filha Perdida, infelizmente. Há poucas possibilidades de identificação (o número de personagens não deve passar muito de uma dezena) e Leda, a protagonista, dificilmente seria classificada como carismática.

Para ser mais específica, a chance de o livro prender um leitor pela história é bem maior caso esse leitor seja, em primeiro lugar, uma leitora, e em segundo, uma mãe. O enredo, que é curto, parte de uma situação que envolve a questão materna (Leda decide tirar férias sozinha ao se ver “livre” das filhas crescidas que foram morar com o pai) e termina em outra situação que gira em torno da mesma questão. Na praia, Leda fica obcecada por Nina, jovem mãe da menina Elena, e seus pensamentos parecem sempre desembocar em comparações da relação que observa entre as duas com sua própria experiência como mãe de Marta e Bianca. Essa obsessão por uma personagem do mesmo sexo no ambiente da praia não pode deixar de lembrar o enredo de Morte em Veneza, de Thomas Mann, mas como a atração não tem o apelo erótico do livro alemão, a semelhança não desvia a história da questão materna.

É claro que é exagero dizer que a única possibilidade de gostar de uma história seja se identificando com o personagem, mas em um livro tão curto e direto, o tempo é pequeno demais para o leitor se acostumar com a ideia de que aquele é um ponto de vista extremamente restrito, o de uma mãe. Caso esse ponto de vista não seja o seu, é bem provável que os conflitos de Leda sejam tão impactantes na leitura quanto a descrição do bosque de pinheiros perto da praia. Ela é uma mulher experimentada, se aproximando da meia idade, e o leitor jovem demais talvez não consiga captar a profundidade de um texto que pode, em tese, ser representado por um infográfico que comece com “Leda é mãe”, de onde sai uma linha que dá várias voltas formando um novelo complicado e termina novamente em “Leda é mãe”.

Meu exemplar de A Filha Perdida da promoção será guardado com muito carinho na estante, à espera do dia em que eu e Leda tenhamos pelo menos uma idade mais próxima, quando tenho certeza de que a releitura acrescentará uma proximidade maior com a história à minha admiração pelo texto de Ferrante. Só é uma pena que talvez até lá ela já tenha sido desmascarada.

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