Eu sou meio cético. Por isso fiz várias caras de reprovação quando Lúcia veio com aquela história de que o pai dela tinha reencarnado no cachorro. Quer dizer, no Top. Lúcia não iria gostar de me ouvir dizendo “o cachorro”, simplesmente.
– O papai reencarnou no Top. Eu tenho certeza. Olha só o jeito que ele está sentado ali, olhando pra gente. Papai sempre fazia isso.
O pai de Lúcia morrera das complicações de uma pneumonia que seu corpo octogenário não aguentou. Ela ficou muito abalada, era muito próxima do pai, porque a mãe tinha morrido quando ela tinha uns catorze, quinze anos. Eu também gostava muito do meu sogro, é verdade. Mas acho que nem que eu o idolatrasse conseguiria acreditar naquela história de que ele voltara no corpo de um vira-latas simpático adotado na feirinha de animais.
Fui eu que tive a ideia de adotar o Top. Lúcia estava à beira de uma depressão, e me doía muito ver minha amada esposa daquele jeito. Pensei em adotar um cachorrinho que fosse dar bastante trabalho, isso a manteria ocupada e poderia acelerar o luto. Fomos num sábado, voltamos para casa com um agitadíssimo filhote malhado de branco, preto e marrom, com (horríveis, não repitam isso a Lúcia) orelhas em pé. Esse nome um tanto ridículo foi presente de uma sobrinha minha, que foi visitar a gente quando soube que tinha cachorro em casa (meu irmão odeia animais e não deixa os filhos terem). O primeiro veredito dela sobre o dito cujo foi um sonoro “Nossa tio, que cachorro top!”. Lúcia achou engraçadinho e o nome ficou. Eu preferia um nome mais sério como Thor ou Thomas Edison, mas o cachorro não era para mim, então nem discuti.
Lúcia começou com essa história de que o Top era o senhor Arthur por causa das vezes em que ele sentava no meio da sala e ficava encarando a gente. Segundo ela, cachorros não fazem isso, e o pai dela tinha o costume de observar as pessoas em silêncio por longos períodos. Depois teve a coisa da comida. Top se recusou a comer todas as marcas que ração que comprei. Quando eu estava quase resolvendo comprar ração de gato para ver se ele gostava, Lúcia fez almôndegas e ele lambeu o pratinho. “Viu só”, disse ela. “A comida favorita do papai era almôndega”. Para mim, isso ainda não era suficiente. Almôndegas são carne, todo cachorro ama carne. Considerei Top um cachorro enjoado e continuei cético sobre a reencarnação do meu sogro.
Quando eu e Lúcia nos casamos, foi quase como se estivéssemos fazendo uma aposta. Eu não acreditava que conseguiríamos durar como um casal morando na mesma casa e ela dizia que a gente se amava o suficiente e que tinha fé que ficaríamos casados até morrer. Não que eu não amasse Lúcia, não era isso. Mas meu ceticismo orgânico me impedia de acreditar em muita coisa, e a instituição do casamento era uma delas. Hoje estamos casados há trinta e dois anos. Para falar a verdade, a história do meu relacionamento com Lúcia é cheio das tentativas dela, bem sucedidas em sua maioria, em me provar algo em que eu não acreditava.
Com o Top não foi diferente. Eu encontrei explicações mais racionais (para mim) para os momentos de observação do Top, para o gosto por almôndegas, para a minha garrafa de whisky quebrada no chão (o conteúdo foi totalmente lambido e encontramos Top desmaiado), para a serenidade com que ouvia Bach e para a surdez parcial. Mas chegou uma sexta feira chuvosa (na verdade não lembro bem se estava mesmo chovendo, mas dá um tom dramático que eu gosto para a história) em que Lúcia novamente triunfou sobre meu demônio da incredulidade. Eu terminava de lavar a louça na cozinha e ela veio correndo, me puxou da pia pelo braço e me fez ir até a biblioteca de casa, ignorando o rastro de espuma de detergente que minhas mãos deixavam pelo caminho.
-Você tem que ver isso – ela disse – Duvido que agora não acredita.
Quando chegamos na biblioteca, ela empurrou bem pouquinho a porta já entreaberta e me fez espiar pela fresta. Top estava sentado em cima da mesa e tinha um livro grosso aberto na sua frente. Ele claramente olhava o livro, o focinho apontando as páginas amareladas. Depois de uns segundos, levantou a patinha e virou uma folha. Olhei espantado para Lúcia.
– Sabe que livro é esse? – ela perguntou, visivelmente contente com a minha surpresa.
Fiz que não. A capa estava fora da minha vista.
– É a Bíblia do papai – ela disse, triunfante.
Voltei a olhar Top em cima da mesa. Ou melhor, o senhor Arthur. Pensando bem, se colocasse uns óculos, até que o olhar lembrava. Lúcia vencia meu ceticismo mais uma vez. É por isso que eu amo minha esposa, ela me faz acreditar em tudo.
Isabela Torezan
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