Olha o Eduardo

C. me ligou dizendo que queria me apresentar o novo namorado. Eu disse que ele poderia vir em casa tomar um café porque ainda não conhecia o apartamento, eu acabei de me mudar. Resolveríamos duas coisas de uma vez só. C. é meu melhor amigo, é a única pessoa que eu aceitaria receber no meio de uma das minhas crises.

Não consegui evitar que a data da minha mudança ficasse muito próxima do meu aniversário, e aniversários e mudanças são sempre motivos para maus momentos meus. Mudanças porque todo apartamento que alugo (sim, já mudei muito, apesar de ser difícil mudar, não consigo morar muito tempo na mesma casa) invariavelmente tem pelo menos uns dois ou três espelhos que tenho que remover ou cobrir. Eu nasci sem reflexo, entendam. É uma sensação horrível parar na frente de um espelho e não se ver, nunca me acostumei com isso mesmo sendo assim desde nascença, porque consigo ver os reflexos dos outros e a comparação é inevitável. Então todo novo apartamento é fonte de sofrimento no começo, porque para pintar de preto o espelho do banheiro, por exemplo, tenho que ficar na frente dele, e são horas convivendo mais intensamente com minha deficiência do que em qualquer outro dia.

E aniversários. Aniversários são o dia do ano em que lembro que mais um ano se passou e ainda não descobri o que é não ser um homem sozinho. C. costuma ouvir meus desabafos nesses dias. Ele repete sempre as mesmas coisas, então na verdade ele é mais um ouvido do que um conselheiro. Eu não me importo, não posso exigir conselhos de C., porque depois de tantos anos pensando no assunto, me parece impossível determinar a razão da minha invisibilidade para o mundo feminino. C. sempre fala que sou uma pessoa maravilhosa, que sou inteligente, bondoso, sensível, legal, etc, etc, e que sou um homem bonito, e que não tem nenhum motivo aparente para o fato de minha mãe e irmãs serem as únicas mulheres que já chegaram, deliberadamente, a menos de trinta centímetros de mim. Sou absolutamente desinteressante para as mulheres e não sei porque. Acabei de fazer vinte e seis anos e estou ansioso pelo dia (se é que ele vai chegar) em que vou passar do estágio de me deprimir com a situação que considero injusta (ninguém chega nessa idade sem saber o que é nem um abraço, ninguém) para o estágio de não me importar mais porque aceitei minha condição.

Assim, quando C. e seu novo par chegaram, me encontraram com a pior das caras.

– Eduardo, esse ano você afundou mesmo. – C. diagnosticou em vez de dizer “olá”.

  1. sabe do meu problema de reflexo, é a única pessoa que sabe, fora a família. Mas quando vi a cara de R., o novo namorado de C., olhando um espelho do hall escorrendo tinta preta, entendi que ele não tinha sido informado da minha situação. Apesar da nossa proximidade, era a primeira vez que C. trazia um namorado ao me visitar. Ele percebeu o meu constrangimento e, empurrando delicadamente nós dois para dentro do apartamento, resumiu minha anomalia sem parar de sorrir e já passou para outro assunto, o que fez a coisa parecer menos um problema do que realmente era e me deixou um pouco melhor.

Mas R. não se convenceu muito da leveza com que minha arreflexia foi descrita e me olhava com uma expressão que interpretei como pena.

  1. tinha vindo preparado para a minha sessão anual de desabafo de aniversário e se sentou no sofá pronto para repetir os elogios de sempre e tentar me consolar. O que eu não esperava era que R. fosse participar do ritual dessa vez. Me ouvindo dizer que não entendia porque era ignorado pelas mulheres, deixou escapar uma exclamação:

-Mas é óbvio que elas não te notam nem se interessam, você não tem reflexo!

O próprio R. ficou um pouco constrangido com o tom de voz que usou e com os dois pares de olhos, meu e de C., que o fitavam espantados porque nenhum de nós dois tinha visto muito sentido na frase. O que tinha a ver minha solidão com a falta de reflexo?

-Quero dizer, nem você mesmo consegue se ver, consegue? Não é estranho que as mulheres não consigam também. É até esquisito que seus amigos te notem, na verdade, nunca pensei que fosse possível  notar alguém sem reflexo.

Foram palavras um tanto cruéis e C. me olhava pedindo desculpas silenciosas. R. não parecia achar que tinha sido exageradamente direto, aí viu a minha cara e entendeu, eu acho.

Mas eu não me importei com a dureza da constatação, porque foi a coisa mais sensata que ouvi até hoje. Entrei num momento de epifania em que tudo de repente fazia sentido: alguém acabava de me apresentar um dos meus problemas como motivo do outro, o que tornava a solução dos dois muito mais simples. Ou melhor, tornaria, caso eu conhecesse a solução para falta de reflexo.

No momento em que R. disse isso, eu realmente não conhecia essa solução. Mas conforme essa ideia nova foi crescendo na minha cabeça, ficando maior e mais clara e parecendo mais justa, comecei a sentir uma sensação estranha que subia lentamente dos meus pés pelas pernas e foi chegando na cintura. Não chegava a ser uma sensação quente, como a de sangue subindo para o rosto, era mais como se eu tivesse injetado alguma coisa em uma veia na canela e essa coisa estava subindo e se espalhando pelo meu corpo.

Em algum momento desses poucos minutos de silêncio após a fala de R., eu soube o que tinha que fazer. A sensação chegava no rosto já. Corri de volta para o hall e esfreguei a mão na tinta fresca do espelho, revelando a superfície refletora que eu tinha acabado de esconder. Estarrecido, mas feliz, contemplei meu rosto pela primeira vez. Eu agora tinha um reflexo.

As mudanças não serão mais um problema. Será que poderei dizer o mesmo dos aniversários?

Isabela Torezan

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