Um
Ele chega em casa, entra, fecha a porta atrás de si, tranca com duas voltas na chave. O silêncio do apartamento provavelmente seria opressor para muita gente, mas não para ele, que está acostumado. Os poucos sons que o ambiente produz soam muito mais perceptíveis: ele escuta a geladeira e se lembra de que está com fome. Vai até a cozinha, tira um queijo e um tomate de dentro do eletrodoméstico resmungão, encontra um pão que tinha sobrado do café e monta sua versão saudável e preguiçosa de um sanduíche. Não teve vergonha quando foi morder o jantar e uma fatia de tomate escorregou e foi parar no meio da mesa, porque não tinha ninguém vendo essa cena. Suspirando algumas vezes, limpou o pouco que tinha para limpar na cozinha e foi sentar na sala. Não tinha ânimo para ligar a televisão e seu braço não deu mostras de que se estenderia para pegar as revistas acumuladas de dois meses de assinatura que se empilhavam na mesinha do lado do sofá. Encostou nas almofadas, tentando ficar na posição mais relaxada o possível, e segurou a mão esquerda com a direita. Entrelaçou os dedos, como se entrelaçasse uma mão alheia. Depois apertou os dedos de uma mão com a outra, e fez a mão pressionada responder à pressão. Sentiu o calor de uma mão passar para a outra. Se fez em duas pessoas, em um momento de silêncio em que o gesto diz tudo e ninguém precisa dizer “eu te amo”.
Dois
A menina volta da escola, os ouvidos ainda zunindo por causa do caos sonoro que são os colégios, passa pelo almoço sem perceber os pais e sem ser percebida também, e sobe ávida as escadas até o quarto. Fechar a porta traz um alívio enorme. Até a respiração flui mais. Ela está sozinha agora, e pode consertar a solidão do jeito que aprendeu ser o melhor. Pega o livro no criado-mudo, se deita e se cobre com o lençol amassado da cama que não tinha sido feita, abraçando o volume de trezentas páginas e capa dura. Aperta com força o livro contra o peito, esmagando os seios pouco desenvolvidos para os seus dezessete anos, sentindo com prazer a dor que isso provoca. Então relaxa a pressão e apoia o queixo na capa, sentindo agora a dor da capa dura riscando o pescoço. Só então se senta, abre o livro e volta a ler uma história onde até o personagem mais solitário de todos tem ela, a leitora, como companhia.
Três
Dona Ilza termina de secar com o paninho o último recanto da pia que poderia conter alguma gota de umidade e vai até o armário em busca da farinha. Não tem problema sujar a pia toda outra vez, ela sempre terá tempo e paciência de limpar tudo de novo. Quando o Alberto era vivo, criticava isso de limpar tudo quando sabia que ia sujar logo em seguida. Mas Dona Ilza gostava de fingir que não sabia que faria um bolo enquanto lavava a louça, e que essa muito boa ideia aparecia depois que terminava tudo. Quando o Alberto era vivo, dava palpite no tipo do bolo, e reclamava se fosse só de baunilha. “Baunilha não tem graça, coloca um pouco de chocolate aí”. Mas Dona Ilza acha o sabor da baunilha delicado e gosta do cheiro que invade a casa pequena. Quando o Alberto era vivo, comeria mais da metade do bolo sozinho, mesmo que fosse do sabor que ele não queria. Dona Ilza demora alguns dias, mas acaba comendo tudo também, e o médico anda alerta com seu peso. Sensível, esse médico nem cogita a possibilidade de proibir Dona Ilza de comer bolos inteiros. Ele sabe que os momentos em que a septuagenária senhora se senta sozinha para comer, sozinha, o bolo que ela mesma fez, são os momentos em que se sente, na verdade, menos sozinha.
A conclusão óbvia
O homem solteiro, a garota solitária e a senhora viúva são sozinhos. Juntos.
No mundo, milhões de pessoas são sozinhas, ao mesmo tempo. Juntas.
Isabela Torezan
Leave a comment