Brinde

Eu passava andando rápido, mas consegui ver o brinde deles. Sentados na mesinha apertada da cafeteria, um de frente para o outro, o casal de idosos me deixou pensando o resto do dia com um gesto que durou menos de dois segundos. Eram quase quatro horas da tarde e eles se preparavam para tomar o lanche juntos; eu passava apressada para comprar qualquer coisa no mercado (a cafeteria fica dentro do mercado). Ele levantou uma xícara de café, ela um copo de suco de laranja, e encostaram as bebidas, em silêncio, um olhando para o outro. O copo era de plástico, não houve som do choque com a xícara. Nenhum dos dois disse nada. Não sorriram. Simplesmente encostaram copo e xícara e prosseguiram na refeição, como se aquele brinde vespertino não fosse mais do que um hábito ou uma obrigação cotidiana. Para mim, brindes estiveram sempre associados a ocasiões comemorativas, ou a reuniões de pessoas queridas (ou pretensamente queridas). Nesses momentos, celebramos algum acontecimento importante, seja para algum dos presentes ou algo mais geral como o Ano Novo ou Natal. O conceito de brinde daquele casal claramente não era o mesmo que o meu. Seu gesto mecânico, desacompanhado de qualquer marcação verbal do motivo do brinde e também de qualquer alteração na expressão facial, me fez pensar que eles provavelmente faziam aquilo com muita frequência. Talvez todos os dias. Imaginei-os caminhando do prédio até a cafeteria sempre no mesmo horário (idosos tem uma tendência para a rotina maior do que os jovens, não tem?) e pedindo o mesmo café e suco de laranja. Infelizmente passei rápido demais e muito absorta no brinde inusitado para reparar no que comiam, se comiam, mas talvez isso fosse hábito também. Isso são suposições, no entanto. Talvez brindassem o fato de estarem vivos. Ou de terem filhos saudáveis e já crescidos e felizes. Ou de não terem filhos e não se incomodarem com isso. Ou simplesmente de poderem tomar café e suco de laranja. Podia ser tanta coisa. Podia ser que estivessem já tão acostumados a brindar a essa coisa que já nem tinham o motivo muito definido na cabeça, e simplesmente brindavam. No meio da tarde, numa cafeteria qualquer. O que é certo é que eles brindavam algo que eu não conheço, que não sei o que é, nem nunca vou saber, porque estava nos pensamentos dos dois, inacessível a observadores externos e apressados que nada tinham a ver com a vida deles. O ideal de todos nós devia ser esse casal de idosos: saber brindar alguma coisa todos os dias, e sem precisar fingir sorrisos, como acontece em muitos brindes por aí.

Isabela Torezan

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