Esses dias, tive uma espinha no queixo. Durou uns dois dias e depois sumiu, como sempre, nada muito dramático. Mas eu sei que espinhas podem ser Espinhas, assim com letra maiúscula, para ter cara de problema. E estive pensando no quanto a acne é uma boa representação da angústia, depressão, tristeza, ou do que chamo só de dor interior mesmo.
Quando se tem uma espinha particularmente problemática no rosto, daquelas que infeccionam e tudo mais, não se tem vontade de sair de casa mostrando a cara por aí. Quem sofre da vida também pensa muitas vezes antes de abandonar o quarto. Espinha a gente pode tentar esconder com maquiagem. Tristeza também. Espinhas começam embaixo da pele, invisíveis, e só depois irrompem e ficam perceptíveis para observadores externos, embora quem tem já soubesse que ela estava ali. Acontece o mesmo com dor interior. Sabemos que espinhas ficam mais feias e nojentas se mexemos nela o tempo todo, e ainda assim fazemos isso, assim como ouvimos de todo mundo que o melhor a fazer é esquecer os problemas, mas pensamos neles o tempo todo. Tem gente muito bonita que, quando tem uma espinhazinha, ninguém nota e vira quase um elemento estético, e tem gente tão feliz que uma angustiazinha de vez em quando não causa transtornos. Tem gente com muita espinha. Tem gente muito triste. Se você arrancar uma espinha sem que ela seque sozinha, vai conseguir uma mancha vermelha, talvez um machucado, que vai demorar muito para sair, se sair, e a chance de nascer outra no mesmo lugar é altíssima (dados comprovados). Quando a tristeza passa muito rápido, é muito provável que seja ilusão e ela vai voltar, novinha em folha como uma espinha voltando no mesmo furinho no seu rosto (igualmente comprovado).
A dor da tristeza só não se parece mais com uma espinha porque ainda não dá para curar com pomadas.
Isabela Torezan
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