A culpa é do elevador

Muita gente tem medo de elevador. Eu não. Subo vinte andares num elevador barulhento sem pensar em morte por nem um segundo, coisa que as pessoas claustro-acrofóbicas não conseguem fazer. P. veio me contar uma “história de terror” e começou a falar em elevador, desanimei. Não ia ser assustador.

E não foi mesmo. Não sei se pelo elevador, porque na verdade ele era só parte da história, ou porque P. é um péssimo narrador. Não sabe dar clima para uma história. De qualquer forma, acho que vale o relato, que é certamente interessante. Elevadores (e prédios) como o da história não são muito comuns. Vejamos se faço um relato melhor do que o de P.

P. mudou de apartamento. O contrato do aluguel venceu e ele nunca tinha sido muito contente com aquele prédio mesmo, tinha vizinhos muito barulhentos, o chão era de carpete e era difícil tirar os pelos do gato que ficavam grudados, mil pequenos detalhes. Quis procurar outro de uma vez.

Ele e seu orçamento mensal gostaram de um quarto-e-cozinha velho, porém bem conservado, num prédio no bairro vizinho do antigo. O corretor de imóveis que o atendeu era exageradamente apático: quase dava para achar que ele não queria conseguir um locatário. Mas P. tinha bem definido em sua cabeça que tipo de apartamento queria, então a propaganda era dispensável. Ele saberia dizer sozinho se o imóvel servia ou não.

Decidiu que servia. Uma semana depois lá estava ele, contrato assinado, caminhão de mudança, gato engaiolado. Caixas e caixas de papelão. Só quando já estava dentro de casa, sentado em meio à bagunça típica de mudanças recém-feitas, que notou que tinha algo estranho. Ele passara a tarde toda orientando o transporte dos móveis prédio acima e depois carregando caixas, e não tinha visto um morador sequer. Ninguém. Nenhum som de criança lá embaixo, ninguém brigando na sacada, ninguém indo até a portaria, ninguém chegando, ninguém saindo. Do seu andar, o primeiro, ele não esperava muitos sons mesmo, tinha sido avisado de que os outros três apartamentos do andar estavam desocupados. Mas o prédio todo tinha um silêncio de cemitério. P. não achou isso ruim, uma vez que um dos seus problemas no outro prédio eram vizinhos barulhentos.

Mas avançando um pouco na história, para não ser prolixo e enfastiante como P., em três dias ele já estava ficando incomodado com aquele silêncio todo. Saía todo dia para o trabalho, e nunca encontrava ninguém. E o prédio também não tinha porteiro. Toda vez que levava o lixo lá embaixo, seu saco era o único. Contas na caixinha de correio, só as suas. A única coisa que lembrava presença humana no prédio era o jardim, bem cuidado e florido, com grama verdinha. Um dia, saindo para o mercado, P. parou no meio de um canteiro de flores roxas e vistosas, imaginando quem seria o misterioso mantenedor daquele jardim, e olhou para o alto. Ainda não tinha olhado o prédio atentamente desse ângulo. Só viu uma janela com a persiana aberta: a sua.

No final de semana, teve vontade de fazer bolo, e quando olhou o pacote de farinha no armário teve uma ideia. Munido de um saco plástico para alimentos, decidiu ir tocar a campainha de algum outro apartamento qualquer, a pretexto de pedir duas xícaras de farinha para o bolo. Um motivo clássico de contato com vizinhos, afinal.

Como P. tem medo de elevadores e achou aquele muito velho e suspeito, resolveu ir até o segundo andar, pelas escadas mesmo. Mas quando tentou abrir a porta da escadaria, a encontrou trancada. No molho de chaves que recebera no contrato não tinha nenhuma que servia ali. Conformado, mas desconfiado, P. foi até o elevador. Só um andar, seria uma viagem curta. Apertou o 2 e fechou os olhos, esperando a parada.

No segundo andar, silêncio sepulcral, como todos os dias naquele edifício. P. escolheu o 203 e tocou a campainha. Esperou vários segundos. Nenhum som vinha de dentro do apartamento. Tocou de novo, por via das dúvidas, pensando que talvez não tivesse aplicado força suficiente no interruptor. Nada de novo. P. imaginou então que talvez o morador estivesse fora, apesar de nunca escutar ninguém pelo prédio, e foi tocar a campainha da porta oposta.

Assim que suas costas estavam viradas para o 203, escutou o rangido da porta abrindo. Sobressaltado, P. se virou de volta. Parada na pequena abertura, estava uma das últimas pessoas que P. esperava encontrar morando naquele prédio: sua mãe. Ela morreu quando P. tinha quinze anos.

“Mamãe?!”, disse P., primeiro mais maravilhado do que com medo. Ele sempre sente muita falta da mãe. Mas a mãe de P., ou a aparição da mãe de P., não parecia ser uma pessoa de muitas reações. Continuou parada na porta, encarando o filho, com um rosto sem expressão.

Os dois ficaram se encarando por alguns minutos, até P. lembrar que não era normal encontrar no prédio a mãe morta há mais de quinze anos. Nesse momento, a mãe também pareceu se lembrar de alguma coisa e, ainda muda, começou a andar na direção de P., bem devagar, arrastando as pernas como se elas estivessem presas a sacos de areia.

P. entrou em pânico e saiu correndo, o elevador ainda estava no andar e ele apertou rápido o botão do primeiro, pela primeira vez aliviado em estar dentro de um elevador. Toda essa pressa era desnecessária, porque a mãe morta andava muito devagar.

De volta ao seu apartamento, P. obviamente não conseguiu fazer bolo nenhum. Passou a tarde abraçado com o gato no sofá, olhando toda hora para a porta (trancada), com medo de que a mãe fosse aparecer ali, arrastando suas pernas pesadas. De noite, demorou para dormir. E quando dormiu, teve um pesadelo desagradável o suficiente para fazê-lo tomar a drástica decisão, no dia seguinte, de se mudar do prédio no qual tinha acabado de chegar.

No sonho, ele continuava a aventura do dia. Dando as costas para a mãe, tocava a campainha do outro apartamento e era atendido pelo Cazuza em pessoa (em pessoa?). Depois mudava de andar, para o terceiro, e sua tia Aurora, morta no ano passado, atendia uma das portas. Nenhum dos mortos falava nada, sempre só olhavam, silenciosos e sem expressão. Ele continuava tocando campainhas, frenético, sempre subindo os andares, e viu seu colega de colégio que se suicidara, viu Hitler, viu Machado de Assis, viu Amy Winehouse, viu seu avô, viu um ator que ele não lembrava o nome, mas que sabia que tinha morrido. Acordou todo suado e ofegante quando, no sonho, tocou uma campainha no último andar e foi recebido por ele mesmo.

P. é uma pessoa peculiar. Ele não só tomou o sonho como presságio, como atribuiu a culpa de tudo ao elevador, do qual ele já tinha medo mesmo, antes. Ele acha que se tivesse usado as escadas, não teria encontrado mãe nenhuma no segundo andar. Ele me contou essa história na sala da minha casa, onde ele está ficando até achar outro lugar para alugar. Uma casa, claro. P. jurou que nunca mais entra em elevador.

Nunca vi alguém com tanto medo de encontrar a mãe.

Isabela Torezan

 

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