Era uma vez uma menina feita de areia. Por causa do risco de se desmanchar com o vento, a menina de areia só saía de casa dentro de uma bolha de plástico que usava desde pequena. Era uma bolha bem grande, dentro da qual ela podia ficar em pé, e nela a menina andava com facilidade, já acostumada. Suas pernas marrom-claro, brilhantes das estrelinhas de mica misturadas na areia, pisavam com delicadeza a parede da bolha e a impulsionavam para frente. Francamente falando, parecia um hamster se exercitando. Mas não deixa de ter a sua poesia.
A menina de areia não podia ser tocada, porque, como os castelos de areia, o menor toque já causaria uma deformação. A simples pressão de um dar-as-mãos tornaria a menina de areia maneta. Ela podia conversar com as pessoas através da bolha, porém, e ela tentava. Mas a bolha, grande e de paredes grossas para aguentar o atrito com o chão, intimidava quem se aproximava. Na verdade, a maior parte das pessoas supunha que a menina de areia nem soubesse falar, porque era realmente difícil de acreditar que uma criatura de composição tão frágil pudesse emitir sons humanos.
A menina de areia seria muito infeliz, mas vivia na bolha, alheia a boa parte do que acontecia fora dela, então era apenas infeliz. Como, apesar de ser a “menina” de areia, já era uma adulta feita, ela tinha tido muito tempo de se acostumar à sua condição e nem sentia mais tanto a dor do isolamento. Sabia que seria assim para sempre, e se conformava.
E assim foi. A menina de areia virou mesmo a mulher de areia, e envelheceu, e envelheceu mais, sempre dentro da sólida bolha. Como era feita de areia, ela não era viva, e não podia, portanto, morrer. Quando chegou na idade em que as pessoas normais geralmente fazem isso, a menina de areia (agora senhora de areia) se viu diante de um dilema. Como resolver isso? Como arrumar um jeito de deixar de existir, como todo mundo faz?
Ela pensou em simplesmente quebrar a bolha (ainda não tinha ideia de como) e abraçar com força o primeiro que encontrasse, se dissolvendo em um montinho de areia fina. Mas descartou a possibilidade, porque não queria assustar ninguém, e também porque achou pouco digno terminar a existência como um montinho no chão.
Ela se lembrou, então, de um rio que costumava visitar quando criança, que ficava em uma parte afastada da cidade. Foi até lá, parou a bolha na margem e ficou observando o fundo do riozinho. A água corria rápida, fresca, levemente barulhenta, pelo leito de pedras entremeadas de… areia.
Ela soube o que fazer, depois de absorver a beleza que via naquela água. Certificou-se de que não tinha ninguém em volta, pegou impulso e jogou a bolha sobre uma pedra pontiaguda bem no meio do rio. A bolha rachou, começou a entrar água, e a menina de areia foi se misturando aos poucos nela, saindo devagar pela rachadura, até não sobrar mais nenhum grão seu dentro do plástico. Depois de uma existência solitária, a menina de areia agora existe acompanhada de vários outros quilos de areia, incorporada, amalgamada, sendo levada, dia e noite, pela água murmurante do rio.
Isabela Torezan
Leave a comment