Dia 01
Cheguei. Sem problemas em pousar no jardim. O rapaz estava morto, no banheiro, como o chefe tinha previsto. Desintegrei-o com bastante cuidado, limpei a sujeira toda e fui dar uma inspecionada na casa. Nada mal. Grande até, para quem mora sozinho. Abri o armário da cozinha esperando encontrar bastante comida, afinal, se ia tomar o lugar de um humano, precisava começar a me acostumar a comer como eles. Mas o armário estava quase vazio, exceto por um vidro de palmito e um pacote de arroz aberto. Tinha aprendido sobre essas comidas no treinamento, e lembrava que o arroz não podia ser comido do jeito que vinha no pacote. Então comi os palmitos. Achei gostoso.
Dia 02
Pelo calendário que achei atrás da porta, hoje é uma segunda feira, dia que, segundo o treinamento, os terráqueos trabalham. Encontrei uma coleção de roupas pretas e cinzas, umas coisas que são como dois canudos de tecido unidos, que achei que serviam para colocar nas pernas. Minhas pernas são muito finas para o tamanho dessas estranhas vestimentas, mas não tem o que eu fazer. Me vesti todo com as roupas do terráqueo, e consegui trocar a cor da minha pele para um tom que achei próximo ao de umas fotografias que vi na parede. Achei os sapatos muito desconfortáveis. Meu chefe disse que eu poderia esconder as antenas com um chapéu, um acessório muito usado na Terra, mas não encontrei nenhum aqui. Talvez esse indivíduo em especial não gostasse muito. Mas tem uma coisa parecida, de lã, acho que se chama gorro. Dobrei as antenas e coloquei esse mesmo. Encontrei também várias tiras de tecido macio, que começam finas e terminam mais largas, que não tenho a menor ideia de como usar. Estou percebendo que meu treinamento foi bem falho. Amanhã preciso fazer uma pesquisa intensa sobre vestuário. Agora preciso ir, ou vou chegar atrasado no “meu” trabalho.
…
Tudo correu bem no escritório. Eu estava com um pouco de medo de notarem a diferença, porque na verdade não me achei nada parecido com o rapaz suicida, mas passei incólume por todas as mesas sem atrair olhares. Fiquei contente de ver que vesti os canudos pretos corretamente. E as tais tiras de tecido são feitas para usar no pescoço, todos os homens usavam uma. Só que ninguém usava gorro, e aí achei mais estranho ainda que não questionaram a minha presença. Além de estar vestido errado, meus olhos são claramente maiores que os de todo mundo aqui, sou mais alto, ando diferente. Mas ninguém pareceu notar que não era Marcos Macieira (esse era o nome do antigo morador da minha nova casa) que estava sentado naquela mesa. Fiquei pensando se alguém teria notado que ele sumiu, caso eu não tivesse assumido. Pobre Marcos.
(a continuar)
Isabela Torezan
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