Marcos não era um ET – parte dois

(Parte Um: https://minusculoteca.wordpress.com/2017/10/02/marcos-nao-era-um-et-parte-um/#more-365 )

Dia 03

Andei mexendo nas coisas do Marcos. Achei o celular dele no quarto e consegui usar depois que descobri como carregar. Tinha que ligar ele nuns buraquinhos na parede com um fio, bem estranho. Mas funcionou legal, eu gostei. Vi no escritório o pessoal falando em Whatsapp e deduzi que era meio parecido com o nosso correio instantâneo. No celular do Marcos tem esse negócio, mas estou em dúvida se ele usava, porque só tinha uma conversa com “Mãe” e o grupo “Grupo do trabalho” (que estava vazio).

As fotos na parede são todas muito velhas. Na maioria delas dá para ver o Marcos criancinha, sempre com o pai e a mãe. Nada de fotos do Marcos adulto, nem com outras pessoas que não os dois velhos. No guarda roupa encontrei, fora os conjuntos pretos e cinzas, alguns jeans bem gastos e umas poucas camisetas de algodão. Umas blusas de lã, também, feitas à mão. Sei que são feitas à mão porque eu mesmo sei fazer tricô, por algum motivo meu preparador do treinamento achou que seria necessário dominar essa arte. Espero encontrar uso para ela, porque faço tricô muito bem, meus pontos são perfeitos.

Encontrei umas revistas de pornografia embaixo da cama. Fiquei na dúvida se tinham sido guardadas ali ou se caíram e foram esquecidas. Tendo para a segunda opção, porque o Marcos não parecia ter porque esconder algo naquela casa. Eu duvido que ele tenha recebido uma sequer visita nos últimos seis meses. Esse lugar está começando a me deixar deprimido, aliás. Nem desintegrando o pobre diabo consegui eliminar essa carga de energia negativa que a depressão dele trazia. Ainda bem que não preciso usar banheiro, porque acho muito difícil entrar lá, olhar aquela banheira.

Dia 04

Hoje quero falar do trabalho de novo. Aquele pessoal é estranho. Uma das moças que trabalham lá também passou pela minha mesa, largou uma pilha de papel e disse “Marcos, esse é aquele da propaganda de bolacha, seria bom se você conseguisse terminar pra hoje ainda”. Ela falou isso de frente para mim, mas não posso garantir que tenha me olhado. Eu continuo usando o gorro, apesar de ter notado que não é normal, porque achei que ainda é menos pior do que as antenas. Como aprendo muito rápido, uma olhada no computador do Marcos tinha sido suficiente para aprender a fazer o serviço dele, e na mesma manhã tinha terminado. Me levantei com o resultado em mãos e desfilei com meu gorro verde-folha até a mesa do que deduzi que era o líder daquele lugar, para entregar os papéis. O cara disse “Certo, obrigado, pode deixar aí”, apontando um amontoado de outros papéis em cima da sua mesa. E não tirou os olhos da tela do computador.

Dia 05

Nada de novo. Tenho a impressão de que todos os dias naquele escritório são iguais. E nada de notarem meu gorro nem minha constituição física estranha.

Descobri o macarrão instantâneo. Um excelente produto, enchi o armário com potinhos.

Dia 06

Hoje, no final da tarde, o pessoal lá do escritório saiu todo junto. Pelo que entendi, estavam indo em um lugar tomar aquelas bebidas com álcool que os humanos parecem gostar muito. Nos outros dias da semana eles só se despedem (nunca de mim, no entanto) e vão embora separados ou em duplas. Mas hoje saíram mais sorridentes, discutindo qual o melhor lugar para ir. Eu fiquei sentado na minha mesa, meio que esperando algum deles vir falar comigo, mas acabei esperando todo mundo ir embora, porque nem olharam na minha direção. Não sei bem como os humanos sentem solidão ou tristeza, mas eu fiquei me sentindo bem mal, pensei bastante no Marcos.

Dia 07

Hoje não tem trabalho. Mas para mim chega. Já mandei uma mensagem para o meu chefe e pedi, não, supliquei, para acabar com essa missão. Até aceito tentar de novo com outro indivíduo depois, mas tem que ser bem depois. Preciso de um tempo em casa, cercado dos meus amigos e da minha família, para limpar essa solidão opressiva de que sofria o Marcos. Pensando bem agora, porque fui aceitar a substituição justo de um cara que se matou? Não sei onde eu estava com as antenas.

Me arrependi de ter desintegrado o rapaz, porque vi um cemitério esses dias e achei lindo, queria poder colocar ele lá antes de ir embora. Mas paciência. Tentei compensar deixando a casa bem limpinha e arrumada, para não deixar o Marcos com fama de desleixado.

Meu chefe me respondeu e meu retorno já foi programado para amanhã. É o fim dos meus dias como Marcos Macieira. Parto desse planetinha azul com a esperança de que as vidas na Terra não sejam todas como essa que tentei usurpar. Porque se forem, que coisa difícil que é viver aqui, hein.

Isabela Torezan

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