Eu nunca tinha feito nada tão grave, acho. Quando criança, eu tinha tanto medo da minha mãe, uma mulher muito brava, que pensava duas, três vezes antes de aprontar alguma. Realmente não valia a pena, ela descobria e eu acabaria apanhando. Na adolescência já não temia os tapas mais, mas andava sempre na linha porque não havia nada pior do que as repreensões de mamãe.
Agora que sou adulto e minha mãe já morreu, não tenho mais essa figura para me impedir de cometer pequenos crimes cotidianos, mas desenvolvi um mecanismo de autorrepressão que funciona tão bem quanto. Se eu fizesse algo errado, sei que morreria de culpa, então não faço. Mamãe fez um ótimo trabalho. Que teria permanecido imaculado se a necessidade, ou a impressão dela, não me tivesse feito quebrar esse regime de maldades.
Sidney é meu amigo há tanto tempo, nem sei explicar porque fiz isso justo com ele. Quando ele me trouxe o currículo impresso e pediu para eu levar junto com o meu, já senti em algum lugar que eu ia causar problemas com aquilo. A vaga era muito boa e Sidney claramente tinha mais chances do que eu de ser convocado para uma entrevista, as qualificações dele eram melhores e mais adequadas ao cargo.
“Sim, claro”, eu disse. “Amanhã mesmo vou passar lá deixar.”. E passei mesmo, mas levando um currículo só. A carreira entusiasmante do Sidney jazia rasgada em quatro no fundo da minha lixeira do escritório em casa. Passou um dia, dois dias, e eu fui chamado para a entrevista. Sidney claramente achou estranho não ter sido chamado, e ainda mais estranho que, apesar disso, eu tinha sido. Não que ele desprezasse a minha competência, não, ele é uma pessoa muito boa para isso, mas todo mundo sabia que eu era menos esforçado e trabalhador do que ele. Se alguém merecia trocar de emprego por um melhor, esse alguém era ele.
Mas, uma vez feito, estava feito. Senti a onda de culpa me invadir no momento seguinte ao que recebi a ligação me convocando e vi a cara de decepção do Sidney. Eu tinha tirado uma super chance dele, e provavelmente ia pegar ela para mim. Fui para casa arrasado. Não estou nem um pouco habituado a sentir culpa, porque nunca tive muito motivo. Agora era real, e Caroline (minha namorada, mas meio que moramos juntos) perguntou, quando cheguei em casa, o que tinha acontecido no trabalho. Eu respondi com um transtornado “nada” e fui tomar banho.
Mal sabia eu, e Caroline, que aquele “nada” ia ser desmentido rapidinho. Fui dormir com uma sensação incômoda muito ruim, e não estava lidando bem com sentir culpa pela primeira vez na vida. Me sentia estranho.
Na manhã seguinte, acordei com Caroline tentando puxar o lençol de baixo comigo em cima. “Não queria te acordar”, ela disse, “mas isso aqui tem que ser lavado”. Com um puxão maior, arrancou o lençol e o segurou aberto na minha frente, com uma expressão entre brava e perplexa. Brava porque o lençol era dela, perplexa porque ele trazia uma enorme mancha azul.
“Tem cheiro de suor”, ela disse. Eu aparentemente tinha suado um suor azul a noite toda. Esfreguei os olhos para ter certeza de que era isso mesmo o que estava vendo, e me ofereci para lavar para ela. Caroline aceitou com uma cara fechada, provavelmente provocada pela mistura de irritação porque eu nem tinha tocado nela a noite toda e de indignação por eu ter manchado seu lençol.
Apesar de surpreso com aquela mancha azul, eu estava me sentindo melhor. Ainda sentia culpa por ter sacaneado um bom amigo, mas já não estava tão mal.
As próximas três noites suei azul, e manchei três lençóis da Caroline. A cada lençol sujo, era menor a culpa que eu sentia e maior a impaciência de Caroline. No terceiro dia ela já estava furiosa. Comecei a ficar com medo de perder a namorada, e por um assunto tão ridículo. Na noite do quarto dia fiquei na sala um tempo a mais, pensando em dormir no sofá coberto com sacos de lixo, quando Caroline entrou, segurando uns pedaços de papel.
“Ou você vai amanhã contar pro Sidney o que fez e dar um jeito de ele fazer uma entrevista lá antes de preencherem a vaga ou pode esquecer continuar dormindo aqui”. Diante da minha cara de quem viu fantasma, ela acrescentou: “Já sei de tudo. Se você se lembrasse de tirar o lixo você mesmo, talvez tivesse passado impune.”
Só nessa hora caiu minha ficha. Caroline, meu amor, você é uma gênia. A mancha azul não era suor, era culpa líquida. Eu vinha secretando culpa líquida há três noites por causa da maldade com o Sidney. Por que minha culpa é azul, não perguntem. Isso aqui é uma história fantástica, culpa pode escorrer do corpo e pode ser azul, se eu quiser.
Acabei não falando com o Sidney, nem fiz nada para reverter a situação. Dormi as duas outras noites num colchão velho sem lençol, que funcionou como uma esponja e absorveu toda a minha culpa. No fim, me livrei completamente dela.
Não foi bom manchar tantos lençóis da Caroline nem ter feito aquilo com o Sidney sem ter feito nada para consertar. Achei mal saber que consigo me livrar da culpa tão fácil, de agora em diante sei que vou me sentir muito mais tentado a fazer coisas ruins. Mas uma coisa boa tirei dessa história toda: sei que minha mãe tinha um motivo para ser tão repressora e evitar a todo custo que eu fizesse coisas condenáveis. Toda vez que eu fizesse algo errado, e crianças normais fazem muitas, seria um lençol estragado depois que eu percebesse que tinha errado. Era ela que fazia o serviço de casa, imagina quanto lençol ela não ia ter que recuperar? Eu não sabia que tinha culpa azul, mas mamãe sabia. Mãe sempre sabe mais.
Isabela Torezan
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