Mestres

Acabo de desistir de um livro pela quinta vez na vida. Não tenho a menor ideia de quantos livros já li, tendo começado aos seis, sete (acho) e chegado aos vinte sem deixar de ler um único dia. Afinal, ler é respirar. As vezes em que comecei algum e parei foram poucas, então dá para listar: desisti de Crepúsculo (li o começo e o fim para mentir que tinha lido para a amiga dona do volume e fã da saga), desisti de Cidade de Deus (talvez por estar sendo obrigada a ler pelo vestibular? Embora eu tenha lido o insalubre Eurico, o presbítero inteiro nas mesmas condições), desisti de A Origem das Espécies (que só comecei porque fui seduzida por uma edição paperback muito sensual), desisti de Eu, um outro, de Imre Kertesz (esse não lembro porque desisti, nem sobre o que era, talvez seja hora de um novo encontro) e agora acabo de desistir de O nome do Vento, de Patrick Rothfuss (nada contra o sr.Rothfuss, mas a Isabela de onze anos teria se dado melhor com ele).

Na maior parte das vezes, mesmo que não esteja gostando muito do livro, quero saber até onde o autor levou aquilo. Ou então foi recomendado ou emprestado por alguém e quero ter o que falar com a pessoa. Ou é a minha determinação orgulhosa em poder falar que já li tal autor. O que me faz pensar que eu deveria ter desistido de livros mais vezes. Duvido muito que a relação que tive com todos os milhares de livros que já li desde que aprendi a ler tenha sido agradável, satisfatória. Meu relacionamento com livros é tão intenso e necessário quanto com seres humanos (talvez até mais), então porque manter, como dizem, relações tóxicas?

É bem verdade que tenho uma tolerância bem alta para uma variedade grande de obras, autores e estilos. Lembro com carinho de muitas e muitas leituras, e com desconforto de muito poucas. E também considero que conheço bem meu gosto literário próprio e também tenho uma intuição mais ou menos experiente para a qualidade da obra (deve ser a intuição que me falta nas relações com humanos). Ainda assim, eu poderia ter evitado alguns sofrimentos desnecessários, se fosse menos orgulhosa, do mesmo jeito que é bom evitar ficar perto de gente que te faz mal.

Claro, tem livros que causam sofrimento, mas que são sublimes. Tive certeza de que ia ter tuberculose lendo A Montanha Mágica, do Mann, mas a experiência de estar lendo aquele livro compensa qualquer crise de hipocondria. Agora, até hoje não sei porque li até o fim as 784 páginas de Uma Vida Pequena, de Hanya Yanagihara: eu tinha vontade de me cortar como o Jude do livro. Sem nenhuma compensação estética do texto, nada ali além do sofrimento. Em suma, tivemos uma relação doentia.

Ah, mas eu que quis comprar o livro, eu que garanti que ia ser bom, depois de ler um trecho. Devo muita coisa que aprendi aos livros, e acabo de perceber que eles tentam, há anos, me ensinar a ser menos orgulhosa.

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