A tristeza de Liza era verde. Mas não de um verde bonito ou poético, era de um verde-pântano, que na comparação mais generosa teria cor de azeitona. Ao menor sinal de desapontamento, o rosto de Liza começava a escurecer, esverdear, e bastava ela ter consciência de seu estado de tristeza para ele estar já completamente mudado de cor. Liza não esperava que as outras pessoas compreendessem esse modo tão peculiar de ser melancólica, e sempre ia embora ou se escondia no banheiro quando acontecia algo ruim ou quando chegavam aquelas tristezas aparentemente sem motivo que todo mundo tem. Escondida, podia ser triste e verde longe de olhos e línguas preconceituosos.
Os mesmos olhos e línguas não perdoariam a outra estranheza da tristeza de Liza, que era a falta de lágrimas. Liza nunca tinha chorado na vida, mesmo já tendo passado por muita dor e sofrimento. Ela simplesmente não tinha lágrimas. Quis chorar muitas e muitas vezes, quando assistia a filmes e tinha a impressão de que chorar fazia tão bem para os personagens. Uma espécie de catarse, ela imaginava.
Mas para fazer sentido estar contando a história de Liza, alguma coisa nessa sua situação deve ter mudado. O dia em que Liza se livrou do verde de sua tristeza também foi o dia mais triste da sua vida. Como dizem, há males que vêm para o bem. Liza nunca gostou muito desse provérbio, mas acreditava que as coisas mais difíceis de se fazer são as que dão mais resultado, de forma que não se espantou de finalmente ter conseguido chorar no dia em que estava se sentindo pior do que nunca.
O motivo da tristeza de Liza não vem ao caso aqui, por ser de ordem muito pessoal. Basta informar que era da natureza das relações amorosas ou da falta delas, o segundo motivo campeão das causas de depressões, depois de mortes. Enfim, Liza estava encolhida na sua cama, sentindo o fone de ouvido incomodando na orelha por ter deitado de lado ouvindo música e abraçando um travesseiro velho e puído que tinha sido dela quando criança (e que ela se recusava a jogar fora). Com o rosto completamente verde, ela pensava em seus infortúnios e encarava a si mesma no espelho do guarda roupa, imóvel.
Liza foi deixando a tristeza tomar conta, como sempre fazia, coisa que na maior parte das pessoas provoca lágrimas. Ela se sentia realmente muito mal. Mal como nunca tinha se sentido antes. Teve certeza de que era a pessoa mais injustiçada do mundo e que nada tão ruim poderia ter acontecido com alguém, só com ela. Foi aí que teve pena, muita pena dela mesma. Teve dó daquela moça verde e encolhida, sozinha, abraçando um travesseiro murcho. E elas vieram, as lágrimas.
Ela fechou os olhos e sentiu a primeira escorrer do olho esquerdo, quentinha, úmida, passar pelo nariz, chegar perto dos lábios. Colocou a língua para fora e lambeu. Era salgada, até que achou o gosto bom. Outra escorreu do outro lado. E então Liza abriu os olhos e voltou a olhar o espelho. Quase deu um grito. Dois riscos brancos, do branco leite da sua pele de rata de biblioteca que não vê o sol, marcavam seu rosto. Mostravam o caminho das suas primeiras gotas de tristeza atravessando o verde do seu rosto.
Ela então voltou os pensamentos para a pena que sentia, de novo, e chorou mais. Esfregou as costas da mão nas gotas que agora já caíam mais livremente e olhou surpresa para a área de pele limpa que ficou no lugar. Sua mão é que estava manchada de verde agora.
Maravilhada com o efeito que chorar tinha sobre a tristeza, porque já tinha até começado a se sentir melhor, Liza buscou um lenço e começou a usá-lo para umedecer uniformemente o rosto com lágrimas. Chorou mais e mais, deixando fluir todo o abalo que sentia, e ia ao mesmo tempo esfregando o lenço no rosto, espalhando as gotinhas salgadas para as áreas verdes longe dos olhos. Depois de meia hora de pranto, tinha o rosto completamente limpo, e o lenço estava verde.
Hoje Liza não se esconde mais do mundo quando está triste. Em vez disso, ela se percebe como alguém com um pranto especial, dona de lágrimas solventes, que não só lavam a melancolia da alma. Lavam também a cor da tristeza.
Isabela Torezan
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