Melodia vermelha

Hoje ela já está de um rosa bem pálido, quase salmão. Mas no dia em que aconteceu, em que finalmente consegui soprar algumas notas dolorosas para fora da minha tão amada flauta, a música era vermelha. Vermelho-sangue, vivo, forte, incômodo, quase acusador. Ainda dói um pouco lembrar e falar disso, mas já sinto que é possível.

Quando Clara foi embora, repentinamente, sem deixar nada mais do que um bilhete seco e umas roupas largadas, meu primeiro pensamento foi que eu poderia suportar essa perda. Sempre fui uma pessoa positiva. E a história nem era tão incomum, eu não tinha motivos para pensar que era o único homem abandonado que existia. Ela já estava meio estranha e distante ultimamente, na verdade a história era até um pouco clichê. Ficou ainda mais clichê no dia seguinte, quando recebi o email. Clara não só tinha ido embora, como tinha me trocado por um outro alguém por quem estava “apaixonada”. Eu amava muito Clara. Mas não a ponto de ficar cego para a quase banalidade dessa história. Eu estava triste? Sim, arrasado, lógico. Mas decidi não me deixar enterrar vivo e faria isso buscando apoio onde sempre busquei desde adolescente: na música.

Logo depois de ler o tal email fui atrás da minha flauta e minhas partituras. Sempre tive o hábito de tocar quase todos os dias, e só não o faço quando estou exausto demais com o trabalho ou muito atrapalhado com alguma coisa, como tinha acontecido no dia anterior. Aprendi a tocar flauta (transversal) aos treze anos, e desde então nunca deixei de estudar. Os amigos para quem toco às vezes não se cansam de estimular uma possível incursão minha no profissionalismo musical. Mas não, acho a música algo muito delicado para virar rotina de obrigação paga. Minha flauta é meu hobby e assim vai ser.

Escolhi uma partitura, agora não lembro mais qual, e soprei a primeira nota. Nada. Nenhum som saiu do instrumento. Intrigado, tentei olhar pelo bocal e não consegui ver nada que pudesse estar obstruindo a passagem de ar. Tentei de novo. E de novo. E de novo. Já estava quase roxo quando resolvi levar a flauta na pia e fazer passar água corrente dentro. A água entrou e saiu, sem produzir a música que eu tinha tentado com o meu fracassado sopro.

Fiz um exame minucioso da flauta e tive certeza de que nada de errado havia com ela. Eu simplesmente não sabia explicar por que não conseguia tocar. Continuei tentando por dias e dias, cada vez mais angustiado, sem conseguir produzir uma única nota. Agora sim eu me sentia completamente abandonado. Sem Clara, e sem música. Passei a trabalhar com fones de ouvido, ouvindo as músicas que não conseguia tocar, mas não era a mesma coisa. Eu precisava tocar, urgentemente. Precisava soprar minha dor em dós, rés, mis e fás. Meus colegas notaram minha mudança de humor e atribuíram tudo à partida de Clara, à traição, mas ninguém se lembrou de me perguntar pela flauta.

Eu nunca desisti. Dia após dia, depois do jantar, eu tentava alguns sopros, cada vez com menos esperança. Até que, como disse, aconteceu. Um sopro fraco e sem perspectivas fez sair da flauta uma leve emanação vermelha. Uso a palavra emanação por falta de algo melhor, porque não sei descrever o estado físico daquilo. Não era música líquida, porque flutuava, nem era fumaça, porque era muito densa, não era vapor, porque não tinha umidade. Era algo entre tudo isso. E vermelho, muito vermelho. Soprei com mais força e um fio de música bem mais grosso saiu da ponta da flauta. Eu sentia um pouco de dor, sem saber precisar muito onde, mas mesmo assim arrumei a partitura e toquei com vigor. Minha música finalmente fluía, com uma dificuldade que nunca tive, e começou a preencher o quarto. Logo eu estava imerso em muita música vermelha. Por sorte, a janela estava fechada. Se aquilo vazasse, os vizinhos poderiam pensar que eu estava me suicidando com algum tipo de gás colorido.

Continuei tocando, alheio ao fato de que quase não enxergava mais nada, porque nunca tinha sentido um alívio tão grande. Cada nota tocada a mais era uma grama de peso a menos que eu tirava de dentro de mim. Logo tinha me livrado da dor de não poder tocar e foi a dor de perder Clara que começou a sair pela flauta.

Continuei tocando nos próximos dias, e descobri que a música sumia sozinha do ambiente depois de algumas horas, livrando meu quarto do vermelho sangue que tudo recobria. A cada dia, a música saía de um vermelho menos intenso. Hoje, como já contei, chegou a um rosa claro. A lembrança de Clara também esmaece. Logo, logo, terei tocado toda a minha dor vermelha embora. E poderei voltar a tocar a tranquilidade incolor.

Isabela Torezan

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