Para mudar de ideia

Eu não acreditava em fantasmas. Quando a Amanda entrou pela janela, flutuando em sua essência etérea transparente, eu disse isso a ela. Viva, Amanda tinha sido uma mulher séria, de pouco drama. Mas morta, foi só ouvir isso de mim que começou a chorar. Choro de fantasmas é horrível de ouvir, se eu acreditasse em fantasmas teria ficado muito incomodado. “Você nunca me amou de verdade! Eu sempre soube disso.”, reclamou, entre soluços.

Além de não acreditar em, eu não tinha paciência com fantasmas. Enxotei Amanda janela afora com o travesseiro e me enfiei nas cobertas de volta, decidido a dormir um sono gostoso até o dia seguinte. Mas Amanda não ia deixar isso tão fácil, é claro. Ficou jogando pedrinhas na janela, que ela pegava não sei como, com aquela mão que parecia de gaze, e por fim atravessou a parede e entrou de novo. Sentou na beirada da minha cama e ficou enxugando lágrimas, esperando meu pedido de desculpas.

Que eu não ia dar. Não me desculpo para coisas em que não acredito. Já me ocupava bastante durante o dia sendo o marido enlutado, à noite queria apenas dormir. E Amanda resolve vir fazer uma cena. Puxei o lençol com força e chacoalhei, expulsando ela de cima dele.

Indignada, Amanda pegou meu copo d’água no criado mudo e jogou todo o conteúdo dele na minha cara. Como não acreditava em fantasmas, não me molhei, mas fiquei bravo mesmo assim. A morte tinha mudado Amanda completamente, ela nunca foi geniosa.

“Eu te odeio, Geraldo! Aquelas lágrimas falsas que você chorou no meu velório, nada dói tanto quanto falsidade! Fui a esposa submissa que você quis a vida toda, mas aguentar hipocrisia no meu próprio funeral também já é demais. Ao menos seja sincero na sua insensibilidade”

Ótimo, era tudo o que eu precisava. Um discurso dramático de um ser inexistente. Dei risada e deitei de novo na cama, determinado a tentar dormir mesmo com ela ali. Pego no sono fácil. E não acreditava em fantasmas.

Depois que virei para o lado, tudo ficou silencioso. Não escutava mais os soluços. Com o braço esquerdo embaixo do travesseiro, minha posição preferida, rapidamente relaxei, entrando naquele estado estranho que precede o sono. Estava tão macio e fresquinho ali… Adoro a sensação do corpo se adaptando ao meu colchão velho. Fui afundando cada vez mais no poço dos sonhos até que slich. Tud.

Isso foi o som da lâmina da faca entrando nas minhas costas e depois, do cabo de madeira colidindo com as minhas costelas.

Tive que começar a acreditar em fantasmas.

Isabela Torezan

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