Eu e o poste

Mudar de casa é sempre estressante e cansativo. Meu humor já não estava lá essas coisas, sempre piora quando estou em bloqueio criativo. A raiva que me dá, o sentimento de inutilidade por passar dias sem escrever uma linha, é terrível. E apareceu a mudança no meio.

Nem tive ânimo de me instalar na nova casa. Simplesmente larguei as caixas com roupas e objetos no meio da sala e nos quartos e decidi passar uns dias vivendo de miojo e comidas de microondas e dormindo no sofá para não ter que procurar o lençol nas caixas. Eu estava completando uma semana sem trabalhar no meu romance e nem mesmo uma crônica pobre tinha escrito. Sentava na frente do computador e começava a ter falta de ar ao ver o cursor piscando. Precisava urgentemente escrever alguma coisa.

Os homens da mudança terminaram de descarregar as coisas lá pelas seis da tarde, de forma que antes das sete eu já estava instalado no meu sofá, com o computador esperançosamente ligado na tomada, no meu colo, e munido de um copo de uísque (sem gelo, apesar do calor, porque a geladeira não tinha sido ligada ainda). Eu nem tinha tido tempo de começar a ter falta de ar quando a campainha tocou.

Espiei pelo olho mágico. Uma senhora bem redonda e baixinha estava parada segurando um pote de sorvete sem o rótulo.

-Boa noite.

-Boa noite! Vim me apresentar, sou sua vizinha da esquerda. Olha, são bolachinhas de nata. Minha especialidade. Espero que goste e seja bem vindo.

Peguei o pote de plástico meio constrangido. Eu estava de bermudas velhas e uma camiseta com várias manchas de vinho porque não sei tirar manchas de vinho, minha mãe morreu sem me ensinar. Não tenho nada contra senhoras simpáticas, em outro momento teria talvez convidado ela a entrar, mas uma senhora simpática no meio do meu bloqueio criativo, quando acabei de me mudar, é na verdade uma velha gorda, chata e inoportuna.

-Ah, muito obrigado, dona…

-Lurdes. Mas todo mundo fala dona Lu. O senhor é?

-Edmundo.

-Prazer, seu Edmundo. Qualquer coisa que precisar, só tocar a campainha. O Bisteca late muito mas não morde não. Fico o dia todo em casa.

Olhei para o quintal vizinho e vi um pequinês tão gordo quanto a dona, dormindo de barriga para cima na grama.

-Muito obrigado, mesmo, dona Lurdes. Agora se…

-Lu, dona Lu.

-Lu, certo. Se me permite vou entrando, a casa está de cabeça para baixo, sabe, e ainda tenho trabalho a fazer.

-Claro, claro. Vou deixar o senhor em paz. Aliás, no que trabalha?

-Sou escritor.

Dona Lurdes fez uma cara de felicidade um pouco suspeita e apontou a casa do outro lado da rua.

-Que coincidência! O Robertinho também! Agora temos dois escritores na rua, que orgulho.

E saiu arrrastando com dificuldade os joelhos pesados.

Não me considero uma pessoa competitiva. Minha mãe também não achava, aliás, ela reclamava que eu era pouco, que devia ser mais ambicioso, etc. Mas sou obrigado a admitir que senti algo diferente quando ouvi que “Robertinho” também era escritor. Eu nunca tinha conhecido pessoalmente outro escritor. Isso ajudou a me dar a impressão de que fazia parte de uma classe rara e especial de pessoas incomuns. Não que eu exatamente me sentisse melhor que os outros, mas sempre me achei diferente, peculiar. Incomum ainda é a melhor palavra mesmo. E sempre me orgulhei disso. Quer dizer, sempre não. Na adolescência isso era horrível, foi depois que aprendi a gostar de ser deslocado. Aí aparece um Robertinho que também é escritor. Também é incomum. Me senti meio traído pela minha peculiaridade.

Eu não queria admitir, mas estava louco para saber quem era o tal Robertinho. Ao mesmo tempo uma preguiça fenomenal me mantinha colado ao sofá e uma leve crise de depressão começava a se manifestar por causa do bloqueio criativo. O resultado foi uma irritação por ter pensado várias vezes, nos próximos dias, em sair um pouco na varanda e observar a casa da frente, mas não conseguir me levantar. Ainda bem que existem donas Lurdes, não é mesmo?

-Bom dia, seu Edmundo! Vim saber como o senhor está indo com a arrumação. Se precisa de alguma ajuda.

(arrumação? Eu tirei minhas pantufas da caixa de ontem para hoje, que tal?)

-Ahn, não, está tudo ok, dona Lurdes, obrigada. Vou pegar o pote da senhora.

(eu não tinha comido os biscoitos)

-Nossa, não, não precisa, seu Edmundo, era só um pote velho de sorvete. Não se incomode. Tem certeza de que não precisa de nada?

Ela esticava o pescoço tentando enxergar dentro da casa.

-Não, não. Estou ótimo, obrigado mesmo.

-Se o senhor diz. Venha qualquer dia tomar café em casa. O Robertinho sempre vai, o senhor aproveita para trocar umas ideias de escritor com ele. Leu a matéria no jornal?

Matéria?

-N…não, não li. Na verdade faz uns dias que não leio jornal, dona Lurdes.

-Lu. Então, o jornal fez uma matéria grandona sobre o livro novo do Robertinho. Na verdade é uma entrevista com ele, mas ele fala do livro novo. Pássaros Gordos.

Pássaros Gordos. Então Robertinho era um escritor ativo que acabava de publicar e era entrevistado pelo jornal da cidade. E eu num bloqueio criativo aparentemente sem cura. Imaginei um café meio violento.

Naquela noite, sonhei com o Robertinho. Sonhei com um homem de uns quarenta anos, de cabelos grisalhos, mas de galã, usando camisas despojadas com as mangas arregaçadas e um ridículo chapéu de senhora com um pássaro empalhado. Mas no sonho isso não parecia ridículo. Ridículo aparentemente era eu, que recebia da mão do Robertinho um livro por ele autografado, e ele dava risadas apontando a minha cara.

Acordei suado e no chão, fora do sofá. A casa estava muito abafada e quente. Enfiei minhas pantufas e decidi sair lá fora um pouco, pegar um frescor noturno. Abri a porta da sala, que notei que tinha deixado destrancada, e parei na varanda, olhando a rua. Quase desmaiei de emoção quando notei que Robertinho fazia o mesmo.

Mas ele não me via. Da varanda, começou a andar com passos decididos pela calçada. Ele parecia tão certo de onde estava indo que fiquei procurando na paisagem algo que pudesse ser o seu destino. Então notei o poste. De todos os postes da rua, aquele era o único apagado. Aparentemente Robertinho, que era bem mais novo do que no meu sonho e usava pijamas xadrez, caminhava em direção àquele poste.

Minhas suspeitas se confirmaram e meu rival sentou no chão embaixo do poste apagado. O poste era um pouco longe de casa, mas eu podia ver que ele tinha um bloquinho de papel na mão. Encostou-se ao poste, fechou os olhos. E em poucos minutos se desencostou, sacou uma caneta do bolso da camisa do pijama e começou a fazer frenéticas anotações. Foi aí que notei que o poste tinha acendido. Depois de uns minutos anotando, Robertinho se levantou e voltou correndo para casa. Vi uma luz no andar de cima se acender e a silhueta de Robertinho sentado em (provavelmente) uma escrivaninha.

Já deve dar para imaginar o que fiz. Saí correndo de pantufas e me sentei no chão embaixo do mesmo poste, ignorando o cheiro de xixi de cachorro. Fiquei olhando a lâmpada, que agora já estava apagada de novo. Minha bunda já estava doendo quando aconteceu. Senti meu bloqueio criativo se dissipando e tive uma ideia brilhante sobre um escritor com bloqueio criativo que se muda para uma rua onde outro escritor aparentemente bem sucedido consegue ter ideias se sentando embaixo de um poste mágico, que se acende quando a pessoa é agraciada com uma ideia. A lâmpada brilhava, ofuscante.

Me levantei e corri para casa, onde meu muito paciente notebook me esperava aberto, com o cursor piscando na página em branco. E agora estou aqui colocando ponto final nessa história.

Isabela Torezan

 

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