Antes do texto

Antes de eu começar a escrever – quando ainda era só uma leitora deslumbrada – eu muitas vezes me perguntei de onde os escritores tiram inspiração. Eram tantas histórias loucas que eu lia, tantas ideias complexas. Qual tinha sido a fagulha que deu vida aos personagens que se apresentavam para mim já como seres completos? Existia essa fagulha? As ideias começavam assim mesmo, pequenininhas como uma faísca, e depois iam se desenvolvendo, como eu imaginava?

Eu lia coisas e simplesmente não tinha ideia de como o autor tinha chegado naquilo. Imaginava ele, o autor, em situações comuns do cotidiano, tomando café, tomando banho, e de repente tendo uma “iluminação” mágica que era a ideia da história. Para os casos em que não havia uma inspiração óbvia explícita, como pesquisas históricas ou personagens reais, essa solução da iluminação mágica me parecia a melhor.

Quando comecei a escrever, comecei com a ideia de que, se fosse uma escritora de verdade, também ia ter essas iluminações. E por algum tempo achei que tinha mesmo, fiquei orgulhosa, porque muitas das minhas ideias surgiram muito de repente, tão rápido e tão sem aviso que pareciam mesmo uma mágica. Mas com o tempo fui percebendo que não era bem assim. A inspiração pode vir de qualquer coisa, absolutamente qualquer coisa. Não necessariamente virá, mas pode. Por isso que às vezes parece que ela surgiu do nada, mas na verdade foi de alguma coisa do meu dia que era tão pequena, rápida ou sem importância que eu jamais achava que viraria uma história.

Semana passada eu andava de manhã pelo calçadão da universidade e pensava que naquele dia de noite deveria escrever algo, para não terminar a semana sem um texto novo, e sentia a cabeça vazia de ideias. Quando a gente está assim, parece que já escrevemos sobre tudo o que existe para ser escrito, mesmo que você seja só uma aspirante a qualquer coisa próxima de um escritor e tenha escrito muito pouco. E se desespera porque lembra de grandes escritores que ficaram velhos escrevendo e nunca acabavam as ideias.

Eu andava olhando o chão, como na maioria das vezes (porque caminho pensando e porque diminui as chances de ter que cumprimentar conhecidos) e decidi que ia fazer um teste. Ia levantar o olhar e a próxima coisa cobre a qual eu pousasse os olhos seria meu próximo tema. Levantei a cabeça e olhei para… um poste de luz.

Passe o resto do dia pensando em que história eu poderia encaixar um poste de luz. No fim, saiu o conto da semana passada, que apesar de ter um tema geral repetido (já escrevi sobre bloqueio criativo antes) foi o primeiro filho da minha nova técnica de inspiração. Eu aprendi que a inspiração é um pequeno demoniozinho. Ela pode aparecer só quando quer, e deixar você louco chamando. Mas também pode ser controlada, às vezes, como um demônio subjugado. Você pode, por exemplo, obrigá-la a sair de um poste de luz.

Isabela Torezan

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