Ele revirava o copo quase vazio nas mãos, dividido entre a vontade de tomar outra dose de uísque e a falta de ânimo de levantar da poltrona para buscar. Uma chuva fraca começava lá fora. Estava ali na poltrona desde as seis da tarde e a já mencionada falta de ânimo também o tinha impedido de acender as luzes , de forma que a rua, mais iluminada que o interior da casa, feria a penumbra da sala com sua luz amarelada .
A janela tinha ficado aberta, e alguns insetos entravam desorientados, procurando outra fonte de luz tão atraente quanto os postes. Uma mariposa tonta caiu dentro do seu copo. Ele a observou se debatendo, umedecendo as asas no resto de uísque. “Um banho de luxo, esse”, ele pensou, antes de pescar a desesperada com o mindinho e depositá-la no braço da poltrona. Era um banho de uísque doze anos.
Depois, tomado por uma raiva súbita e inexplicável, pressionou o polegar com força sobre o abdômen da mariposa. Uma massa negra aderiu ao tecido da poltrona e seu dedo ficou manchado do pó preto das asas. Então viu o que tinha feito e começou a chorar. Ao mesmo tempo que se sentia mal pelo assassinato, quis ser a mariposa. Morta. Quis não existir mais. Assustou-se com a própria cadeia de pensamentos e, atribuindo tudo isso às três doses que já tinha tomado, levantou-se (finalmente) para pegar mais uma.
Encontrou a garrafa vazia. “Cacete”, pensou. Bebida acaba sempre na hora em que mais precisamos dela. Errou a altura da prateleira e a garrafa caiu no chão, se espatifando em mil cacos. Ele estava descalço e um pedaço de vidro se enterrou no seu dedão, provocando uma dor aguda que o acordou da bebedeira. Percebeu então o barulho da campainha, insistente. A essa hora?
Saiu da cozinha mancando, deixando um rastro de sangue pelo caminho, soltando mais alguns palavrões. Olhou pelo olho mágico. Um jovem hipster segurando uma prancheta de madeira estava parado na sua porta, cutucando o coque com uma caneta e lendo o papel da prancheta com a testa franzida. Ele entreabriu a porta apenas.
– Amigo, seja o que for que você está vendendo ou qual for a porcaria de pesquisa que você faz, esse não é um bom momento.
– Não se preocupe, senhor Moraes, nós…
– Morales. Meu sobrenome é Morales.
Como ele sabia seu nome?
– Isso, Morales, perdão. Nós da Last Path colocamos o bem estar do cliente em primeiro lugar. Estou aqui para assegurar que a sua experiência com o processo seja a melhor possível.
Evitando olhar o coque, elemento que lhe causava extrema aflição, ele esfregou as têmporas para tentar se livrar da confusão na cabeça provocada pela bebida e agravada por aquela resposta estranha.
– Escuta, eu não contratei nenhuma Last qualquer coisa. Aliás, não contratei empresa nenhuma. Já faz uns dias que nem saio de casa e cortaram meu telefone.
– Sei disso, senhor. Não trabalhamos com contratações. Nossos serviços já estão pré-definidos para a maioria dos clientes. O senhor poderia me acompanhar até a van?
Só então ele notou a van amarelo-gema estacionada na frente da casa. “Last Path” em letras gorduchas pretas estampava o lado do veículo, e um suspeito desenho estilizado de um sol se pondo (ou nascendo?) acompanhava o letreiro.
– Não, não posso ir até van nenhuma. Boa noite.
Fechou a porta e girou a chave.
Quando chegou na cozinha, pensando em recolher os cacos, escutou um pequeno estalido na sala. Ainda arrastando o pé sangrento, voltou.
O hipster da prancheta estava parado no meio da tapete, cutucando o coque com um sorriso complacente. Atrás dele, a porta ainda fechada.
Isabela Torezan
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