Resenha de Retorno a Brideshead
Julia Flyte é o tipo de personagem secundário que eu queria que fosse o principal. Na verdade nem sei se ela é realmente secundária, porque livros em primeira pessoa sempre me confundem (hoje estou falando de Retorno a Brideshead, Evelyn Waugh, terceira leitura do ano). Parece meio egocêntrico escrever uma história e ainda ter o privilégio de ser chamado de protagonista. Mas é assim, paciência, Julia só aparece aqui pelo relato de Charles.
“Mais tarde, ela me disse que eu de certa forma ficara registrado em sua mente como quando, em busca de determinado livro numa estante, a gente se interessa por outro, pega o volume, espia a página de rosto e – pensando consigo mesmo: ‘Quando tiver tempo, preciso ler este também’ – o recoloca no lugar, continuando a busca”. Essa passagem está logo no primeiro parágrafo do capítulo em que Charles começa com “É hora de falar de Julia” e fez eu me render a Julia completamente. Usar livros como parâmetro para descrever sensações é algo que faço o tempo inteiro, ainda que só dentro da minha cabeça, por medo de que as pessoas não entendam, e ver Julia fazendo isso…
Depois disso, já fiquei suspeita para julgar, mas continuei o livro achando que ela era a personagem mais interessante de Retorno a Brideshead. Era para ser Sebastian, seu irmão complicado, pelo menos à primeira vista é Sebastian quem deveria ser o centro das atenções do leitor. Sebastian, o jovem louco e irresponsável que muda a vida do narrador Charles ao apresentá-lo à sua família (também louca e ao mesmo tempo, incrivelmente normal em uma época em que as esquisitices eram disfarçadas com o verniz da sociedade).
O fim, a meu ver, me provou que eu estava certa sobre Julia e Sebastian. Falar mais é dar spoilers, mas acho que não faz mal dizer que alguém que ler deixando sempre Julia num cantinho vai se surpreender bastante com o final. Retorno a Brideshead é um delicioso sanduíche de momento presente – memórias – momento presente. No recheio, o texto maravilhoso de Evelyn Waugh (que é um homem, apesar do nome, e que foi casado com uma Evelyn!) cheio de imagens literárias ímpares como um turbilhão de memórias comparado a uma revoada de pombos, que ficam em volta da nossa cabeça, sempre em movimento, e alguns pousam no ombro. Julia foi para mim uma personagem que vai virar memória-pombo-que-pousa. E fica.
Isabela Torezan
PS: recebi Retorno a Brideshead na caixinha de janeiro da TAG Experiências Literárias. Eles não me pagam para fazer propaganda, aliás, eu que pago eles todo mês, mas amo tanto o negócio que não me importo de fazer marketing de graça.
Leave a comment