Meu primeiro relacionamento do ano

Resenha de O gigante enterrado

Eu acho que uma parte importante da relação que se tem com um livro (para mim, a leitura é um relacionamento completo) é tudo o que acontece antes de você começar a realmente ler. Como você chegou nesse livro? Como ele foi parar na sua mão? Alguém te deu? Você comprou por acaso, sem muito interesse e sem ler a sinopse direito, só porque gostou da capa? Te indicaram? Ele estava abandonado e empoeirado em alguma estante? Isso pode definir os rumos da relação, ou não ter importância nenhuma. Ainda assim, eu sempre gosto de prestar atenção nisso. Mesmo quando namoros acabam, as pessoas sempre se lembram de como se conheceram, não lembram?

O Gigante Enterrado, de Kazuo Ishiguro, estava na minha lista de desejos desde que o Sr.Ishiguro levou o Nobel. Mas eu não tinha planejado quando ia comprar, ou se ia procurar alguém que tinha para emprestar, se ia querer ler em inglês, se ia ser tradução. Enfim, ele não estava exatamente no meu horizonte próximo. Aí, de repente, é a semana do Ano Novo. Minha tradição é estar lendo um livro quando 23h59 de um ano se transformam nas 00h do outro (sozinha, no quarto, com a janela fechada, sim, sem ver os fogos). Não tinha nenhum livro novo em casa que pudesse cumprir a função, e eu estava quase no fim do último livro do ano. Minha roupa de ano novo seria toda azul, porque azul é minha cor favorita e achei que isso daria uma coragem para 2018. O Gigante Enterrado é um livro azul. Pronto, estava resolvido. Fui na livraria e trouxe para casa o que seria meu primeiro livro do ano. Quando comprei, eu nem sabia qual era a história.

Saber tão pouco sobre o livro que vai começar pode ser ótimo, se a surpresa é boa, mas é arriscado. No caso do Gigante, garanto que foi uma surpresa maravilhosa. O próprio caminhar da história é uma sucessão de surpresas. Comecei a leitura com uma ligeira sensação de engodo, porque a linguagem simples e os elementos fantásticos lembravam uma história para crianças. Não que eu não goste de histórias para crianças. Só não achava que os autores delas ganhassem Nobéis. Preconceito besta, é verdade.

Mas O Gigante Enterrado não é uma história para crianças, afinal. O que pareciam ingênuos elementos infantis se revelam metáforas poderosas de questionamentos muito adultos e maduros, coisa que é reforçada pela idade dos personagens principais. Axl e Beatrice formam um casal de velhinhos que umas pessoas que conheço chamariam de “super fofo”. Depois que me acostumei com a maneira um tanto “travada” com que as pessoas falam umas com as outras (o que na verdade dá o clima de tempos de cavalaria na Inglaterra, não sei como fica isso no original em inglês), cada diálogo parece ter alguma outra coisa sendo dita por trás.

O final… bem, eu senti um impacto fantástico. Mas é o tipo de final que pode tanto ser amado como odiado, então não faço previsões. Mas arrisco dizer que dificilmente alguém se arrependa de comprar esse adorável volume azul (a lateral das páginas é azul também, é lindo). Espero que se alguém resolver ler, encontre nele uma companhia tão boa quanto foi para mim nesse início de ano.

Isabela Torezan

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