Resenha de Desonra
Se você anda não leu Desonra, de J.M.Coetzee, e pretende ler, não continue a partir do próximo parágrafo. Esse texto contém spoilers, na verdade ele é um spoilerzão, e eu respeito as pessoas que, assim como eu, têm aversão crônica a spoilers. Pronto, avisado, agora vou enrolar um pouco nesse parágrafo aqui para dar tempo de você, pessoa que costuma de arrepender das coisas, pensar bem se quer mesmo continuar lendo. Pensou? Tem certeza? Então tá, pode seguir lendo.
Desonra foi meu quarto livro do ano. Por causa da minha ideia de que o caminho até um livro é parte importante do relacionamento, aí vai: estava na minha lista de livros desse ano, tendo migrado da lista do ano passado. Nunca cogitei comprar, porque era um daqueles livros cuja leitura teria a função de me apresentar a um autor, se eu amar, compro. No caso, Coetzee, que já ganhou Nobel e tudo e eu nunca tinha lido (não que eu faça questão de ler todo mundo que já ganhou Nobel, mas não dá para falar que isso não chama a atenção). Fora que ele é sul-africano, e até onde me lembro nunca tinha lido nada da África do Sul. Então peguei na biblioteca da UEL mesmo. Como todo bom morador de biblioteca, estava surrado daquele jeito que chega a ficar fofo tipo uma almofada.
Não é um livro que gostei de ter lido. O livro é bom. Ele escreve muito bem. A história tem bons personagens e muitas coisas para refletir, tem críticas sociais. Mas eu tive muitos sentimentos ruins lendo, então a impressão geral é ruim. Na minha lista de ano novo, está escrito que vou evitar a palavra ódio e derivados, mas não consigo usar outra coisa para definir o que senti pelo professor David Lurie desde as primeiras páginas. Ele seduz e praticamente estupra uma aluna e aparentemente não enxerga isso como errado. Ele despreza pessoas. Ele é meio preconceituoso com a homossexualidade da filha. Enfim, achei ele um cara péssimo. E ele é o protagonista: imagine uma longa viagem de avião do lado de um tagarela mala que passa a viagem toda te chateando. Deve ser parecido.
Ele sofre, supostamente, um castigo por ser assim. Tem de pedir demissão da faculdade onde dá aulas, fica desempregado. Depois, quando vai para a fazenda da filha Lucy, bandidos atacam a casa e ele fica ferido. Vira voluntário em uma clínica que cuida de animais, pertencente a Bev Shaw, amiga de Lucy (oh, coitado, tem que presenciar sacrifícios de animais e carregar corpos). Ele se cansa trabalhando na terra, o intelectual que trabalhava em uma obra sobre Byron. Realmente, ele está em desonra.
Mas enquanto isso, a aluna assediada está pensando em largar a faculdade e deixou a família desesperada e a filha Lucy foi estuprada coletivamente no assalto, do qual ele saiu com alguns ferimentos, e engravida de um estuprador que – ta daaa – é parente de seu vizinho e vai morar ali do lado. E com tudo isso o senhor Lurie ainda consegue ficar angustiado porque sua miniópera de Byron não avança. Tudo bem, não acho que os problemas de uns diminuem os dos outros, mas a coisa ficou pessoal (para mim). Não conseguia me conformar que o personagem principal de um livro chamado Desonra fosse esse serzinho esnobe. Pode ser, e é muito provável, que existam interpretações várias da história desse livro (é livro de ganhador do Nobel, certeza de que já foi mastigado por muitos críticos e professores por aí) e que tenha um sentido e uma função ele ser desse jeito. E que a desonra do título não se refira a ele, ou só a ele. E que a história quer mostrar que existem muitas histórias de gente caindo em desgraça pelos mais variados motivos. Mas não é sobre isso que eu queria falar. Eu não gostei de David Lurie, e tive que conviver com ele por mais de duzentas páginas. Por isso, não gostei de ter lido o livro. Simples assim. Eu leio emocionalmente, na maior parte das vezes.
Para fechar, um acréscimo ao mal estar desse livro. No final, David sacrifica um cachorro deficiente que tinha se afeiçoado a ele. E depois de ler sobre estupros, violência física pesada, personagens sofrendo de grave carência emocional e a morte de um bode doente, com os olhos secos, eu só derramei algumas poucas lágrimas quando li sobre o sacrifício do cãozinho. Para falar a verdade, fiquei foi com raiva de um livro que pareceu querer provar que eu sou uma grande insensível.
Isabela Torezan
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